sábado, 6 de agosto de 2016

A família Radford e os nossos dias



Instantes atrás li sobre a maior família britânica: eles acabaram de receber o 19o. filho. Deixando de lado o realmente importante, que é o testemunho de vida desse casal, achei interessante as objeções de alguns nos comentários. Dentre as repetidas censuras pela pretensa irresponsabilidade do casal, uma crítica voltava-se para o fato de o bebê não poder receber toda a atenção devida do pai e da mãe por precisar dividi-los com os dezoito irmãos. Já ouvi essa objeção contra a 
família numerosa muitas vezes, e acho que está na hora de dizer algo a respeito.

Hoje em dia, quando uma família abre-se à vida e acolhe todos os filhos que Deus deseja enviar, ela o faz na plena consciência de que nem o pai, nem a mãe, nem criança alguma é o centro do universo, a pessoa mais importante do mundo. Na verdade, todo cristão deveria saber disso: que ele não é o personagem principal da história, mas apenas um coadjuvante a fazer uma pequena participação na grande peça da eternidade, na qual Jesus Cristo é o protagonista absoluto. Ou seja, numa família numerosa, ninguém é a estrela. Todos os que ali estão devem viver em espírito de amor e de serviço, ajudando uns aos outros em tudo quanto necessário.

Mas é claro que uma pequena comunidade de pessoas que vivam tal entrega e dedicação, lutando contra o egoísmo na prática do dia a dia, não pode ser compreendida em nossos dias. Na verdade, é precisamente o contrário: além de incompreendida, tais pessoas são motivo de chacota. O bacana, o legal, o "sensato" é mesmo ter um só filho e tratá-lo como um deus, entupindo a criança de todas as coisas que porventura a sua soberana vontade venha a desejar (mesmo que 5 minutos depois tudo seja abandonado por um novo objeto de desejo), nunca dizendo "não" a ela, e nem sequer sonhando com uma palmada simbólica quando cometer o maior desrespeito de que for possível. Isso sim é bom. É torná-lo senhor de tudo, mas, tão logo quanto possível, despachá-lo para a escolinha, depois para a natação, depois para o futebol, depois para os avós e, por fim, para os amigos, para que joguem videogame até que os olhos saltem da cabeça, afinal, ninguém aguenta um tirano desperto por mais de uma ou duas horas.

Não é por acaso que há gente com 20, 30, 40, 50, 60 anos completamente incapaz de olhar para o lado e se importar de verdade com alguém, pois aprenderam com os pais que eles próprios são os protagonistas do universo, que os seus sentimentos são os mais importantes, os mais intensos, os mais sofridos do mundo, que as suas vontades não merecem freio algum, ainda que esmaguem os demais. E, curioso, geralmente é o mesmo pessoal que usa a hashtag
 ‪#‎maisamorporfavor‬
PS: Já ouvi também a crítica de que antigamente os mais velhos é que acabam criando os mais novos. Ora, será que é também um mero acaso o fato de que as pessoas crescem, noivam, casam, os filhos chegam e não têm a menor idéia de o que fazer com um bebê recém nascido? Ou, se aprendem alguma coisa, é porque fizeram algum curso no hospital antes do nascimento do bebê? Gente, cuidar de criança era algo que se aprendia em casa, na família, com os irmãos mais novos sim! Por que raios isso precisa ser visto como um martírio, uma injustiça? Seria de fato uma injustiça nos casos de os pais lavarem as mãos e não fazerem nada, mas, até onde sei, quando os irmãos mais velhos cuidavam dos mais novos era porque os pais estavam trabalhando na lavoura, fazendo comida, lavando roupa com as próprias mãos, enfim, fazendo coisas muito mais pesadas do que trocar uma fralda ou embalar um bebê. E esse aprendizado não seria de imenso auxílio quando a pessoa, uma fez adulta, constituísse a própria família? Ah, pra quê família, né? Bom mesmo é criar gato.

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