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Literatura de qualidade: a "margem de segurança" do homeschooling

Para quem me acompanha no facebook não é novidade: estamos já na etapa da revisão do livro Homeschooling católico - Um guia para pais, ou seja, se tudo der certo, até o final de abril entregaremos o livro àqueles que garantiram o seu exemplar. Tem sido uma pequena e recompensadora jornada, pois mais do que falar sobre homeschooling, este é um livro que aprofunda a fé católica, amarrando ambos os assuntos de uma maneira intensa e precisa.

Pois bem, relendo as páginas iniciais, deparo-me com algo que me tinha passado batido: dentre as várias respostas de um professor às mais comuns objeções contra o homeschooling, encontrei uma consideração interessantíssima a respeito da importância da literatura. E como este é um assunto recorrente em minha vida, não só porque é parte da rotina da minha família mas também porque muitas pessoas me escrevem pedindo dicas e buscando soluções para as suas dificuldades, resolvi compartilhar com vocês um pouco do que o referido professor disse.

Sabemos que o homeshooling envolve um mundo de coisas, não só em termos de conteúdos, mas também de habilidades, particularidades e circunstâncias de cada família, ou seja, mais do que lidar com aulas propriamente ditas, lida-se com vidas inteiras, em todas as suas dimensões, pois estamos tratando de nossos filhos no seio de nossa família. Contudo, mesmo que haja tantas coisas envolvidas e sobre as quais precisamos atentar, possibilitar à criança uma boa alfabetização e, posteriormente, um contato constante com literatura de qualidade é simplesmente essencial. Eu disse ESSENCIAL.

Não, o que digo não é exagero. Não, um grande talento científico ou matemático não pode servir como desculpa para que as letras e seu domínio sejam negligenciados ou mesmo substituídos. E isso por um motivo muito simples: o conhecimento e o domínio da língua mãe, bem como a formação de um imaginário rico e virtuoso, são as chaves que abrem todos os mundos, incluindo os científicos e matemáticos. Sem uma boa capacidade de leitura e de interpretação, problemas, hipóteses e teorias podem ser completamente  distorcidas ou incompreendidas, o que torna o talento, na melhor das possibilidades, subaproveitado, e, na pior, inútil.

Agora, porém, vem a consideração própria do professor, sobre a qual eu ainda não tinha pensado: uma boa alfabetização e um programa de literatura de qualidade (de qualidade mesmo) cria uma espécie de "margem de segurança" ao redor da criança. Em que sentido? No sentido de que, mesmo nos casos daquelas famílias em que os pais, atingido determinado ponto da formação dos pequenos, não conseguem ir muito adiante ou não são naturalmente talentosos sobre aquela área, a boa preparação literária permite que a criança adquira um excelente desempenho no assunto por conta própria.

Sim, o autodidatismo é um dos nossos objetivos aqui em casa, e sabíamos que o alto desempenho em leitura e interpretação é um dos caminhos para alcançá-lo, mas eu nunca havia pensado em termos de "margem de segurança", como uma espécie de "garantia" contras as limitações paternas. Claro, uma coisa são limites efetivos, outra é preguiça. E é evidente que tal "margem" só pode e deve ser utilizada depois que a criança já avançou bastante em idade, em conteúdos e em domínio dos mesmos, caso contrário, incentivada precocemente a lidar com desafios que estão acima da sua capacidade, ela obterá apenas frustração e sofrimento desnecessário.

Para melhor ilustrar o que quero dizer quando falo em literatura de qualidade, deixo abaixo a lista dos livros que a Chloe (que está com dez anos) deverá ler ao longo deste ano, o que também poderá ser útil a outros pais com crianças da mesma idade -- vale notar, no entanto, que aqui não estão incluídos nem os livros selecionados espontaneamente por ela (que sempre acrescenta obras de Monteiro Lobato e curiosidades aleatórias), nem o livro de estudo (Os Lusíadas), nem os livros que leio para todos eles à noite:

  • Oliver Twist, de Charles Dickens (já concluído);
  • O caçador, de James Fenimore Cooper (já concluído);
  • O último dos moicanos, de James Fenimore Cooper;
  • A comédia dos erros, de Shakespeare (já concluído);
  • Vinte mil léguas submarinas, de Júlio Verne;
  • Da terra à lua, de Júlio Verne;
  • Tarzã dos macacos, de Edgar Rice Burroughs;
  • Kim, de Rudyard Kipling;
  • O último dos moicanos, de James Fenimore Cooper;
  • Um conto de Natal, de Charles Dickens.
Também fazemos alguns exercícios de interpretação de texto e resumos, para termos a certeza de que ela está compreendendo corretamente e sabendo expressar adequadamente aquilo que leu.

Enfim, mais do que ampliação de vocabulário e enriquecimento do imaginário, mais do que formação do caráter e aquisição de cultura, a boa literatura também é o passaporte para o autodidatismo e a garantia de que nossos filhos conseguirão ir mais longe do que nós.


PS: Se o caso do seu filho é totalmente diferente, isto é, se ele não gosta de ler e você não sabe mais como incentivá-lo na aquisição deste hábito, por favor, escreva para o email encontrandoalegria@gmail.com Nos próximos dias abrirei uma nova turma do curso "Ensine seus filhos a gostar de ler" e ao enviar o email você não perderá nenhum aviso a respeito.

Comentários

  1. O desejo pela leitura nas crianças é despertado muito por causa dos próprios pais, do exemplo de compromisso que eles, pais, têm para com suas tarefas diárias. Quando a criança observa, desde a mais tenra idade, os pais lendo livros, adquire-se uma concepção de naturalidade à leitura, acha-a tão natural quanto outras atividades comuns no dia a dia. Mesma coisa é o falar, os gestos, as formas de se portar e etc. Por isso que é importantíssimo os pais se certificarem de que estão sendo bons exemplos aos filhos.

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