quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Prólogo da obra "Homeschooling Católico", de Mary Kay Clark


Pais, caso alguns de vocês sintam-se inclinados a pensar que o conteúdo deste livro, Homeschooling Católico, é exagerado ou distorcido, permitam-me, enquanto sacerdote, compartilhar com vocês algumas experiências. 

Eu sei o que é servir a mesma paróquia como cura assistente e depois como pároco, em ambos os casos dando aulas semanalmente a alunos da primeira à décima segunda série. Eu sei o que é ensinar em uma escola católica onde as crianças costumavam aprender os princípios básicos da Fé Católica, para, anos mais tarde, após o Concílio Vaticano II, retornar e descobrir que as crianças desta mesma escola agora sabiam praticamente nada sobre o Catolicismo. Eu sei o que é ser nomeado pároco de uma comunidade e descobrir, logo à minha chegada, que os adolescentes da Confraternidade da Doutrina Cristã (CDC) não viam diferença entre o Catolicismo e as “grandes religiões mundiais”, a saber, Islã, Budismo e Hinduísmo. Eu sei o que é ser responsável por ainda outra paróquia onde os professores do CDC entendiam como “ecumenismo” não ensinar que a Igreja Católica é a Verdadeira Igreja. Eu sei o que é ministrar um workshop de dois dias a um público de padres, tendo como tema a educação religiosa dos jovens, em uma das universidades católicas de maior prestígio dos Estados Unidos, e ter de ouvir de alguém de dentro da universidade que eu não tinha o direito de insistir que se ensinasse à juventude que a Igreja Católica é a Verdadeira Igreja. 

Fui professor em minha comunidade paroquial desde minha ordenação, ensinando turmas da primeira à décima segunda série ao longo de todo o ano letivo. Assim como o bispo é o primeiro professor da Fé na diocese, a condição de padre faz de mim o primeiro professor da comunidade, e eu gostaria de saber o que está acontecendo em nossas salas de aula. Fui ordenado quando tudo estava em seu devido lugar: escolas católicas eram escolas CATÓLICAS. Crianças e adolescentes conheciam os princípios básicos da fé. 

Doze anos após ser transferido da paróquia na qual primeiro servi, fui enviado novamente a ela na condição de pároco, e descobri que as crianças da escola primária católica agora desconheciam os princípios da Fé. Os alunos católicos da escola secundária local, a maioria dos quais haviam estudado na escola primária da paróquia, não faziam ideia de que na Santa Eucaristia nós recebemos o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo. Eles não sabiam que a Missa reproduz através dos tempos o Sacrifício da Cruz. Eles desconheciam os conceitos de pecado mortal ou venial e a obrigatoriedade da Missa Dominical. E, o que é pior, seus pais ignoravam o fato de que seus filhos sabiam pouco ou quase nada da Fé. Eles haviam delegado a terceiros, integralmente, seu próprio dever primordial de educar e formar seus filhos, e nem sequer se deram ao trabalho de verificar se estes estavam aprendendo os princípios da Fé, pois acreditavam que alguém faria isto em seu lugar. 

Quando eu era um padre recém-ordenado, minha grande paixão, depois de oferecer o Santo Sacrifício da Missa e administrar os Sacramentos como atos de Jesus Cristo prolongados no tempo e no espaço, era a educação e a formação de crianças e adolescentes. Mesmo após todos esses anos no Santo Sacerdócio de Cristo, minhas prioridades continuam as mesmas. Considero meu trabalho de educar e formar crianças como um auxílio à tarefa primordial dos pais e como uma extensão do meu dever de pregar o Evangelho de Jesus Cristo. 

Tendo escrito para a imprensa católica, eu sei o que é receber milhares de cartas de pais católicos de todas as partes dos Estados Unidos. Ocorreu com frequência, ao longo dos últimos 25 anos, estes pais descobrirem tarde demais que nas escolas católicas seus filhos não estavam aprendendo princípios católicos, mas heresias. Eis alguns exemplos: 

“Temos oito filhos. A escola católica primária e secundária roubou da Verdadeira Fé nossos cinco mais velhos, mas o mesmo não acontecerá com os outros três. Estes estão estudando em casa conosco.” Ou: “Padre, em nossa escola local, as crianças estão aprendendo em nome da Igreja Católica coisas que nós sabemos serem contrárias ao Catolicismo. Estaremos pecando se as tirarmos dessa escola?” Minha resposta: “Você está fazendo a pergunta errada. O correto seria perguntar: ‘Qual minha responsabilidade, se não as tirar de lá?’” 

Ouço, com frequência, a seguinte resposta: “Mas a alternativa, na escola pública, é ainda pior. Faltam disciplina, moral, etc... Como devo proceder?”

Posso, agora, responder a essa questão com: leia o livro Homeschooling Católico, da Dra. Mary Kay Clark, e você saberá qual caminho deve tomar, obrigatoriamente.” 

O Concílio Vaticano II não foi responsável pelos abusos tão extremos que vemos hoje em dia. Um Concílio Ecumênico é inspirado pelo Espírito Santo. Há, também, algumas exceções notáveis ao que escrevi acima a respeito do fracasso do ensino da Fé nas escolas católicas. Ainda restam algumas boas escolas católicas, embora não em grande número. Há também padres bem informados, e há os que não tomam notícia do que se passa em seus programas de Confraternidade da Doutrina Cristã ou nas escolas católicas de suas comunidades. Estes, assim como os pais, acostumaram-se a delegar suas responsabilidades a terceiros. 

Alguns padres simplesmente não compreendem a obrigação dos pais de ensinar seus filhos. “Não queremos essa revista na biblioteca de nossa paróquia. Ela defende o homeschooling.” Isto foi o que ouvi de um padre sobre a revista familiar da qual sou editor. “Essas pessoas são esquisitas. Seus filhos estudam em casa. Elas prejudicam o desenvolvimento de seus filhos ao submetê-los ao homeschooling.” 

Afirmações desse tipo – feitas por leigos, religiosos e padres – são contrárias à autêntica Fé Católica. Mesmo alguns padres expõem sua ignorância dos ensinos da Igreja e dos documentos do Concílio Vaticano II, quando não reconhecem a validade e a importância do homeschooling. 

A Declaração sobre a Educação Cristã do Vaticano II deixa bem claro:
Os pais, que transmitiram a vida aos filhos, têm uma gravíssima obrigação de educar a prole e, por isso, devem ser reconhecidos como seus primeiros e principais educadores (11). Esta função educativa é de tanto peso que, onde não existir, dificilmente poderá ser suprida.*

Quando o presente livro, Homeschooling Católico, me caiu nas mãos, e após ler a “Introdução”, a qual considerei uma análise exata dos problemas que enfrentamos hoje, o capítulo que li em seguida foi “O Papel do Pai no Homeschooling”. Em minha fala no Simpósio Internacional para o 75º Aniversário de Fátima – localidade onde Nossa Senhora apareceu como catequista e Mãe da Evangelização – eu creditei muito da responsabilidade pela crise atual da fé aos pais de nossas famílias. A crise da fé é algo que vem maturando há muitos séculos, desde a Revolta Protestante e as causas que
a ela levaram. Os pais católicos têm negligenciado largamente seu papel, ao mesmo tempo em que as mães têm com igual frequência sucumbido ao Movimento Feminista. 

O capítulo que em seguida chamou minha atenção foi “O Problema da Socialização”. Esta é a primeira objeção que costumo ouvir a respeito do homeschooling. Curioso: por muitos anos, acompanhei durante quatro semanas centenas de jovens de todas as partes dos Estados Unidos e do Canadá até Fátima, e jamais notei qualquer problema social com aqueles que estudavam em casa. Percebi neles, ao contrário, uma maturidade que não via nos demais. 

Mais adiante, meus olhos pousaram sobre o capítulo “Disciplina da Família Católica Homeschooler”. Durante as peregrinações à Europa com os jovens, pude notar que aqueles com melhor autodisciplina, capazes de compreender imediatamente o motivo de estarmos na terra de Maria e o que eu buscava levando-os até lá, eram, frequentemente, os que estudavam em casa. São sempre eles (digo: sempre) os jovens que conhecem sua Fé em profundidade e podem discuti-la com inteligência. São filhos motivados de pais motivados. É com motivação que eles vêm experimentar a Igreja enquanto Una, Santa, Católica e Apostólica. 

Após observar os modernistas, os dissidentes dentro da Igreja e o secularismo crescente que tem invadido nossas paróquias – e obtido considerável sucesso em nossas escolas – Fulton J. Sheen disse: “São os leigos que salvarão a Igreja.” Posso afirmar, com base em meu próprio trabalho como padre e jornalista ao longo dos últimos 25 anos, que o que preservou meu otimismo quanto à prevalência da verdade e ao triunfo do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria foram os milhares de bons pais de todo o país com quem mantive contato; pais seriamente preocupados com dar a seus filhos uma educação e uma formação segundo o verdadeiro Catolicismo.

Ao final de suas peregrinações com a “Juventude por Fátima”, era comum os jovens dizerem: “Agora não estou só. Agora sei que existem muitos outros jovens em todo o país que estão aprendendo com seus pais os mesmos valores católicos que eu mesmo tenho aprendido em casa.” 

Pais, vocês não estão sozinhos ao praticar homeschooling! Eu venho escrevendo há 30 anos sobre educação e formação católica, sobre o dever dos pais enquanto principais educadores de seus filhos e sobre a necessidade de se manter a fidelidade ao Magistério. Cerca de um quarto de século atrás, uma mãe católica instou-me a abandonar meus apostolados a fim de estabelecer programas de homeschooling, o que significaria abandonar também minha função de pároco. Esta mãe e alguns outros pais católicos, desesperados porque não havia boas escolas, públicas ou católicas, vinham utilizando programas de homeschooling tais como os produzidos pelos Batistas. Eles esforçavam-se para adaptar à doutrina católica estes programas essencialmente protestantes. Em minha visão, era uma prática arriscada, na melhor das hipóteses. Agora, porém, temos nosso próprio homeschooling católico. E é compreensível que este tenha sido produzido por leigos.

Estamos ainda na infância do homeschooling em nossos tempos modernos. Mas o homeschooling ele mesmo é tão antigo quanto a Igreja. Houve um tempo em que a Divina Liturgia e o lar eram os principais e únicos professores da Fé. Se nossas escolas católicas, as quais fizeram tão nobre contribuição no passado, falharam em alguma área em especial, foi em comunicar aos pais que eles são os principais educadores e formadores de seus filhos no que diz respeito à Verdadeira Fé, e que é praticamente impossível substituí-los nessa função.

Pe. Robert J. Fox, Apostolado Família de Fátima
Trad. Lorena Miranda Cutlak

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* In: http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decl_19651028_gravissimum-educationis_po.html

2 comentários:

  1. Como ex-aluna de escola "católica", é com tristeza que identifico nessas linhas minha própria experiência escolar. Ao mesmo tempo, é profunda a alegria de ver a solução nessas mesmas linhas, da qual meus filhos serão beneficiados e, em grande medida, nós como pais também.

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  2. Chego a uma conclusão ao ler esse texto. Nossa única saída é o homeschooling! Temos que pensar em nossas crianças e zelar por suas almas. Se em as escolas "católicas" estão adequadas imaginem as laicas?!?! Senhor que eu seja capacitada para educar meus filhos em casa e que Nossa Senhora esteja sempre ao meu lado!

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