segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Paternidade: o chamado, o ofício e a cruz


O texto que reproduzo abaixo foi originalmente publicado em The catholic gentleman

e gentilmente traduzido por minha amiga Aline Galhardo.

Esqueça os pais que você vê na televisão: egoístas, viciados em trabalho, ausentes, intimidadores, influenciáveis. Eles não merecem esse título. Ser pai de verdade é algo maior que isso. É algo tão grande quanto Nosso Pai que está no Céu.
O chamado a ser um pai católico é um chamado a sofrer – como marido, como pai, como católico. Assim como Cristo é a cabeça da Igreja, o pai católico é a cabeça de sua casa, e sua cabeça é coroada de espinhos. Não se trata de se promover. Trata-se de entregar sua vida pela sua família. A paternidade é assustadora. Mas é também fabulosa, e é por isso que devemos mostrar a paternidade católica para um mundo que se esqueceu para que serve um pai.
O chamado
Deus criou a paternidade com um propósito. Ele tem afirmado esse propósito através dos tempos, de Adão a Noé, a Abraão, a Davi e de São José ao Nosso Pai que está no Céu. O pai Católico é chamado a cumprir quatro responsabilidades, particularmente: adorar a Deus, proclamar o Evangelho, ensinar e manter a fé, e administrar os canais da Graça. Em outras palavras, o trabalho do pai é litúrgico, evangélico, doutrinal e pastoral. Ufa! Isso é um bocado. Vamos analisá-los um de cada vez.
Litúrgico
Pais, guiem suas famílias através da adoração. Seus filhos foram criados para gozar da mais adorável Trindade através da adoração. E Deus criou a família como um lugar especial para que O adoremos. Liturgia vem de uma palavra antiga que significa “trabalho público’, e esse é o meio pelo qual católicos conduzem a adoração. Não pense que a liturgia da televisão, ou a liturgia das noites a mais no escritório, ou a liturgia das intermináveis atividades extracurriculares não está moldando a alma de seus filhos. As pessoas estão sempre cultuando algo, e sua família não será a exceção. O que está sendo cultuado no seu lar? O sucesso e o entretenimento, ou será que é Deus? Como pai, seu primeiro trabalho é dar forma e direção ao culto no seu lar. Faça um pequeno oratório, lembre-se do jantar à mesa e torne isso sagrado e preencha seu lar com a liturgia da oração. Reúna toda a família e deleitem-se na glória de Deus.
Evangélico
Pregue o evangelho à sua família. Se necessário, use palavras – e lembre-se que palavras quase sempre são necessárias. O tipo forte e silencioso pode soar bem a um cowboy, mas não a um bom pai. Um pai silencioso é um crime contra Deus e o próprio homem. Deus criou o mundo por meio de palavras, Cristo proclamou o Reino com sua boca, e esses lábios que Deus te deu não foram feitos para cuspir sementes ou se embriagar com whiskey. Não podemos adorar a Deus se não O conhecemos. Então, o segundo ofício do pai católico é o de proclamar a boa nova de Jesus Cristo. Pregue o evangelho no seu modo de viver e com palavras. Veja bem! O eterno Filho de Deus se tornou um filho de Adão, nasceu de uma filha de Eva, morreu, e ressuscitou, para nos salvar do poder do pecado e da morte, para nos tornar partícipes da vida de Deus! Pais, evangelizem suas famílias. Contem-lhes a maravilhosa história de Jesus todos os dias. Façam-no a partir do pressuposto de que ninguém mais será capaz de fazê-lo por vocês.
Doutrinal
Eu sei. Eu sei. Você não é nenhum teólogo, é melhor deixar que os profissionais cuidem da doutrina, você é um homem muito ocupado. Essas são desculpas esfarrapadas. Se você é capaz de ser um vendedor ou um mecânico, se você consegue acompanhar os resultados dos jogos de basebol e ler o jornal diariamente, você tem o que precisa para esse ofício. Você é batizado? O Espírito Santo está rugindo dentro de você, como um urso esperando para acordar? Seus filhos foram batizados, porém agora eles devem saber o que é o Batismo — O que é preciso renunciar, acreditar, e fazer. Então, o terceiro ofício do pai católico é o de ensinar a fé. Você tem o privilégio de ensinar seus filhos em que devemos ou não crer. Pais, guiem suas famílias no conhecer a Deus. Mostre a eles que a doutrina é encantadora. Abra as Escrituras e a Tradição. Anuncie as grandes verdades da nossa fé católica.
Pastoral
Sua família necessita da graça, e o quarto ofício do pai católico é o de administrar essa graça. Os sacramentos são ministrados pelos ministros da Igreja, mas cada católico tem alguma responsabilidade pelos canais da graça. É em você — não no seu vizinho, mas em você — que sua esposa e filhos experimentarão e verão que o perdão de Deus é real, que o amor de Deus os faz livres, que eles são amados. Pergunte a eles como você pode rezar por eles. Diga-lhes pelo que você está rezando por eles. Chame-lhes a atenção quando pecarem, e esteja pronto para perdoá-los assim como Deus o faz. Leve-os à Sagrada Eucaristia, à catequese, à capela do Santíssimo Sacramento, ao confessionário. Seja o primeiro a ficar de joelhos e o último a se levantar. Deixe a porta do seu escritório aberta, atenda ao telefone, e esteja pronto para dar um abraço de urso bem apertado e um beijo com a barba por fazer. Somente você pode ser o pastor do seu lar.
Veja, você é o papai urso, o patriarca, o pater-familia. Deus o está chamando para arregaçar as mangas e ir à luta. Você vai bocejar e abrir uma outra garrafa de cerveja, ou vai atender ao apelo?
O ofício
Cara, essa coisa toda de ser pai não foi uma ideia de um fanático branco da Idade do Bronze1.O patriarcado é a ideia brilhante de Deus — que se destina a ser igualmente brilhante. Como marido, você é chamado a irradiar o amor cruciforme do Filho à sua esposa. Como pai, você é chamado a revelar o amor do Pai aos seus filhos. Existem pelo menos três habilidades que todo pai católico deve dominar: ouvir, liderar e ser vulnerável.
Ouvir
O pai católico não sai por aí fazendo proclamações e dando sermões. Ele não faz com que tudo gire em torno de si mesmo, como a tarefa de casa das crianças ou as férias da família, por exemplo. A habilidade mais útil que todo pai deve dominar é a de ouvir. Ouça o que sua esposa e filhos estão tentando dizer a você. Faça perguntas. Pergunte sobre o dia deles. Celebre seus talentos e interesses. Seja lento para falar e rápido para ouvir.
Lidere
O pai católico não é jogado de um lado para o outro de acordo com a moda ou desejos aleatórios. Ele lidera. Um bom líder não abusa de seu poder, mas usa-o para servir. Revista-se como um homem real, e lave a louça. Lembre-se do motivo pelo qual Deus te deu músculos, e leve o lixo para fora. Honre sua esposa e sirva-a. Estime e proteja seu corpo e sua alma. Ela é sua rainha, e você deve tudo a ela. Trabalhe incessantemente pelo bem-estar de sua família. Seu trabalho é o de dar alimento, abrigo, roupa, amor paterno. Fique a sós com Deus e reze. Sacrifique-se por sua família num sacrifício vivo. Acima de tudo, guie-a na oração.
Seja vulnerável
Na maioria das vezes, quando as pessoas dizem "seja vulnerável" significa ser honesto sobre suas fraquezas, aberto sobre a sua dor. Essa vulnerabilidade é boa, mas há um tipo igualmente importante: a vulnerabilidade da alegria. É assustador permitir que outros vejam o que você ama. É preciso coragem para se levantar e dizer: "Uau! Isso é lindo!". A razão número um por que as crianças não vão à Missa é porque seus pais não vão à missa, e mesmo quando o fazem, eles não deixam essa alegria transparecer. Não há lugar no Reino de Deus para pais estóicos que mantém tudo a panos quentes. Uma das melhores habilidades do pai católico é a vulnerabilidade. Seja honesto sobre quanto você ama o Deus trino. Esteja aberto sobre o quanto você O adora no Santíssimo Sacramento, quanto você ama sua Mãe, como você está tomado pela graça extraordinária. Pais, arrisquem ser alegres.
Deus criou a paternidade pela mesma razão que levou Thomas Edison a inventar a lâmpada — para ser luz. A paternidade deve ser um farol para o mundo, uma tocha do amor e da autoridade, uma vela de devoção ao nosso único e verdadeiro Pai que está no Céu. Então, não mantenha essa luz embaixo de um cesto.  
A cruz
As pessoas estão se entupindo de formas baratas de amor. Seus corações estão famintos de amor, e isso se deve (principalmente) porque seus pais não estão dando amor da forma como deveriam — a suas esposas, a seus filhos. O modelo de pai veiculado pela cultura pop é do tipo barato, descartável, cruel ou superficial. Eles não merecem esse título. É tempo de mostrar o que é a verdadeira paternidade: a cruz.
Você que é o homem da casa? Você pensa que é o chefe? Então ajoelhe-se como um escravo, como o Filho de Deus e comece a lavar os pés de sua família. Esse não é o momento de falar sobre sua felicidade e liberdade, como se você mesmo fosse o centro das atenções. Esse é o momento de se humilhar para que sua esposa e filhos sejam exaltados. Essa é a oportunidade de entregar sua vida. E é por isso que a paternidade católica é assustadora. Mas é também por isso que ela é tão importante, e por isso precisamos mostrá-la para um mundo que se esqueceu para que serve um pai.
Liderança não é uma licença para usar e abusar. Liderança é uma coroa de espinhos ensanguentados. Você é a cabeça do lar, como Cristo é a cabeça da Igreja, e isso significa que você precisa usar uma coroa de espinhos.
Essa coroa resume o que é a paternidade. O pai Católico é chamado a ser oblação, a se doar, a ser um sacrifício vivo. Sua vocação é sofrer — como marido, como pai, como católico. E isso é bom. Aquele que quiser salvar sua vida, vai perdê-la, mas aquele que perder a sua vida, vai encontrá-la. A paternidade é a sua cruz.
Pais, Jesus está olhando nos seus olhos e dizendo: “Siga-me.”
A pergunta é, você vai tomar a sua cruz?

sábado, 26 de setembro de 2015

Tudo ou nada

Recentemente escrevi um post no facebook sobre o fechamento das mulheres cristãs à vida. Não há nada de novo no que disse, exceto que tem se tornado cada vez mais raro ouvir coisa semelhante. 

O que mais me impressionou na repercussão do post não foi a quantidade de compartilhamentos obtida (superior a 1.400 até o momento), mas a quantidade de mulheres que, mesmo curtindo, mesmo compartilhando, não entenderam o que eu disse. São mulheres que mantiveram o mesmo pensamento que tinham até então: "Sim, filhos são bênçãos de Deus, e eu escolho quantas eu quero".

Alguém aí consegue imaginar Salomão dizendo a Deus: "Certo, Senhor, aceito todas as coisas que queres dar-me por ter pedido apenas sabedoria para cuidar do teu povo, mas, por favor, não me dê riquezas demais, mas apenas o suficiente"? Alguém aí consegue imaginar-se no lugar de Salomão dizendo semelhante loucura? Não, né? Afinal, prosperidade nunca é demais, riqueza nunca é demais, recurso nunca é demais. Quantas pessoas poderíamos ajudar se tivéssemos todo o dinheiro que gostaríamos, não é mesmo?! Quantos missionários poderíamos abençoar, quantas famílias poderíamos amparar, quantos, quantos!

No entanto, curiosamente, o próprio filho de Deus estabelece as coisas de uma maneira bem pouco usual para nós. No Evangelho de São Mateus, no capítulo 16, após contar aos discípulos que seria necessário padecer muitas coisas, morrer e ressuscitar para cumprir o desígnio redentor de Deus, Jesus é incitado por Pedro a deixar de desvario, a ter compaixão de si, a cuidar de si, a poupar-se, afinal, onde já se viu, alguém como Jesus, deixar-se moer, destruir, e isso ainda ter a ver a vontade de Deus. Isso já era demais!

Mas, em seguida, Jesus, corrigindo a Pedro, estabelece a atitude correta àqueles que desejam ser seus discípulos.

"Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me; porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem quiser perder sua vida por amor de mim, acha-la-á. Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o homem em recompensa da sua alma? Porque o Filho do Homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as suas obras."
Em outras palavras, a coisa mais preciosa que há é a alma humana. Nada vale mais do que isso, nem as riquezas de Salomão, nem mesmo o mundo inteiro. E o único modo de salvá-la, isto é, de garantir-lhe a vida eterna em lugar da condenação eterna é perdendo-a por amor de Cristo. E como se pode "perder a vida por amor de Cristo"? Vivendo uma vida de sacrifício, isto é, renunciando-se (abrindo mão de si, dos seus mimos, das suas vontades, das suas vaidades, das suas seguranças, dos seus planos, dos seus estribos), tomando sua cruz (sua circunstância, sua realidade, seus problemas, suas dificuldades, seus relacionamentos) e seguindo a Cristo, procurando pisar nas suas pegadas, escolhendo os caminhos que Ele escolheria, de passagens sempre estreitas e pedregosas, rumo ao fim, rumo à morte (rumo ao início, rumo à vida).

Mas e o que isso tem a ver com o início deste texto, quando falei sobre o fechamento das mulheres cristãs à vida, sobre a incompreensão por parte delas daquilo que eu havia escrito? Tem a ver que elas é que têm decidido o quanto é razoável renunciar-se, o quanto convém negar-se, o quanto é possível abrir mão de si sem comprometer-se muito, mantendo aquela margem "racional" de "amor próprio", de "segurança", de "estabilidade", seguindo bem ao estilo da sugestão que Pedro havia feito ao Senhor, e isso especialmente no que diz respeito à maior riqueza de Deus: a vida de novos filhos Seus. Até quando, mulheres? Até quando seguiremos ao Senhor somente enquanto parecer-nos razoavelmente fácil? Até quando seremos fiéis a Ele somente enquanto não formos vigorosamente postas à prova? Até quando prosseguiremos agindo voluntariamente como crianças na fé, como imaturas, como quem tem todas as razões do mundo para desconfiar de Deus? 
Até quando usaremos a igreja para desobedecê-la, escondendo-nos atrás de uma suposta "paternidade responsável"!? Até quando daremos esse testemunho ridículo e covarde?! A sua vida é Dele ou não é, afinal?! Você vai ou não vai morrer por amor Dele?!

Escolham. E escolham logo. Parem de perder tempo em cima do muro. Ou tudo é para Ele ou nada é para Ele.

E antes que me venham criticar dizendo que é muito fácil falar assim, afinal de contas eu gozo de uma série de confortos, seguranças e comodidades, faço questão de deixar claro o seguinte: eu não tenho casa própria, não tenho plano de saúde, não tenho dupla cidadania, não tenho passaporte e não tenho renda fixa mensal. Mas tenho, além do amor redentor do meu Senhor, um marido que cuida de mim, me ama e me santifica, uma filha de 9 anos, dois filhos, um de 4 anos e um de 2 anos, e, agora, mais um bebezinho em meu ventre, que ainda não sei se é a Agnes ou o Teófilo, e que devo poder abraçar dentro de pouco mais de 8 meses.

Eu escolhi morrer para viver, escolhi entregar para ter, escolhi perder aqui para ajuntar no céu. Não é fácil. Mas a fé cristã nunca é fácil.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Ideias sórdidas


Um dos argumentos mais sórdidos usados contra o homeschooling é aquele que diz que os pais homeschoolers tiram as crianças da escola para poderem abusar delas sem inconvenientes. Sem nem entrar na questão da leviandade e da doença mental de quem afirma uma coisa dessas sem oferecer prova alguma, sem mencionar caso concreto algum, levanto aqui dois pontos:

Primeiro: Quem quer molestar, abusar, espancar ou matar uma criança não precisa nem nunca precisou tirá-la da escola para isso. Se fosse assim, todas as crianças escolarizadas estariam num mar de segurança (basta vocês olharem essa página para verem como o caso, em verdade, é precisamente o contrário).

Segundo: Seguindo essa mesma linha de raciocínio nojenta, poder-se-ia dizer então que quem envia as crianças para a escola o faz por não suportar conviver com elas e desejar ficar afastado o máximo possível?

É fácil dizer besteira e ter opinião pronta sobre o que não se conhece. Difícil é aguentar uma resposta à altura.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Oração

Somos uma família cristã. Assim, desde sempre, desde quando ainda éramos protestantes, as orações fazem parte de diversos momentos do nosso dia a dia. Hoje, há mais de dois anos como católicos, intercalamos preces espontâneas e recitações de orações consagradas.

Recentemente, porém, já nem me recordo como, lembrei-me da oração de São Tomás de Aquino para antes dos estudos. E como é uma oração magnífica, decidi compartilhá-la aqui com vocês, caso queiram instituir ou aprimorar as orações das crianças no momento de estudar.

Claro, eu só tive a ideia de disponibilizar a oração para vocês. Quem realizou a arte toda foi minha amiga Juliana Morrone. Ela fez um modelo mais sério para os pais e um modelo mais divertido para as crianças, inclusive com florzinhas para colorir. ;)

Espero que vocês gostem e, mais ainda, que as orações produzam os frutos desejados!

Aqui está o .pdf do modelo para os pais.

Aqui está o .pdf do modelo para as crianças.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Não deixam nossas crianças em paz

Pretender a legitimação de uma atitude com base na sua mera ocorrência é um dos modos mais recorrentes e falaciosos de se argumentar, embora pouca gente o perceba. Não é porque uma coisa acontece que ela deva ser aceita. Menos ainda: não é porque uma coisa acontece que ela deva ser elevada a regra, a padrão, a norma. Todavia, temos visto isso acontecer com uma frequência cada vez maior, em diversos ambientes e com diferentes alcances em nosso país.

Um exemplo bobo do que estou falando são alguns dos comentários originalmente presentes neste post (Marta Suplicy e Laerte ensinando "português"). Muitas pessoas defenderam a intromissão e a tutela da escola em um assunto tão íntimo e delicado como o incipiente despertar para a sexualidade dos adolescentes porque, pasmem, as crianças têm curiosidade sobre o assunto. Sim, é verdade, algumas realmente têm tal curiosidade. Mas vejamos a coisa mais de perto.

Não é preciso ser muito esperto para ver que o assunto sexo está ostensivamente presente em nosso dia a dia. Você se desloca de carro e passa por quantos outdoors com propagandas de modelos insinuantes, sensuais e seminus? Você abre o youtube e quantos dos vídeos sugeridos são de músicas, videoclips e propagandas extremamente sexualizados? Você para no caixa do supermercado e encontra quantas revistas femininas com mulheres quase peladas na capa? Isso para mencionar apenas três exemplos "amenos" (sem nem entrar na questão alimentar da ingestão excessiva de hormônios, entre outras que repercutem no despertar da sexualidade). Três exemplos dos quais nós dificilmente temos como livrar os nossos filhos. Mas sabemos que há coisa muito mais pesada por aí (as novelas não me deixam mentir).

Assim sendo, dado um tal contexto, como esperar que o assunto não acabe aparecendo na pauta das curiosidades infantis? Mas reflitamos: essa é uma pauta natural ou uma pauta artificial, forçada, impingida sobre nós e nossos filhos, com origem, motivos e propósitos que desconhecemos? Soa estranha a minha pergunta? Imaginemos, então, como as coisas transcorriam cerca de 100, 60 ou 50 anos atrás. Isso fazia parte das preocupações infantis? O assunto era abordado dessa maneira?

Claro, sempre haverá quem alegue que "os tempos são outros", que "o mundo não é mais o mesmo", como se isso por si só chancelasse tudo o que vemos por aí. É verdade que os tempos são outros. É verdade que o mundo não é mais o mesmo. Mas ele melhorou? Será? Em que sentido? Tecnologicamente falando, um retumbante SIM é a resposta. Moralmente falando, um vergonhoso NÃO é inescapável. Nunca vimos e sofremos tantos flagelos morais em nossa sociedade: o adultério como sendo algo corriqueiro, a poligamia institucionalizada, o roubo e a mentira personificados nos mais altos postos do governo, a pedofilia amenizada e despontando no horizonte como uma forma de "amor", crianças que não conhecem e não têm sequer o nome de seus pais, famílias em que os membros pouco convivem, e, horror dos horrores: assassinatos em quantidades superiores a de muitas guerras civis e a execução de inocentes diretamente no ventre de suas mães tratada como um "direito".

Diante disso tudo, será que aceitar e até defender a intromissão da escola neste assunto tão íntimo e delicado é o mais adequado? Ou, na verdade, aceitar e defender algo assim não é o mesmo que assinar o atestado de derrota no cuidado real da saúde emocional das nossas crianças, entregando-as, cada vez mais cedo, a algo para o qual elas não têm maturidade psíquica para lidar? A escola já não tem acumulado fracassos suficientes com os quais lidar? Ou os pais já não querem responsabilidade alguma além daquela de trazer ao mundo um novo ser humano e pagar as contas por ele geradas, na melhor das hipóteses? Enfim,
abandonamos de vez quaisquer critérios morais absolutos, aqueles mesmos que conduziram a civilização ao longo dos séculos, ou abraçamos de vez o relativismo expresso nos últimos modismos, sem termos a menor ideia de para onde ele nos levará?
 
Não lavemos nossas mãos, esperando que um milagre gere adultos equilibrados, maduros, responsáveis e íntegros se, na infância, os entregamos aos "produtores de um mundo melhor" que cada vez nos aproximam mais do vazio, da maldade e da morte.