sábado, 7 de março de 2015

O difícil amar

Há duas semanas encerrei a primeira turma do curso "De volta ao lar" e, no entanto, em lugar do esperado alívio pela missão cumprida, o que fica é a saudade. Sim, de verdade. Sem afetação. Vocês não imaginam quão precioso é descobrir-se acompanhada, num certo sentido, por outras mulheres na inusitada e difícil trajetória de volta ao lar. Sejamos sinceras: hoje em dia a mulher pode (e deve; ai dela se não!) querer ser e fazer tudo, menos ficar em casa cuidando de si, do marido, dos filhos e da casa. Ela pode ser bombeira, médica, astronauta; pode ser prostituta ou virar homem (?); adotar 100 gatos e abortar todos os filhos; mas aquela que resolver fazer o que milhões e milhões de outras mulheres fizeram antes dela ao longo dos séculos, essa, ah!, ela merece toda a reprovação do mundo!

Mas nada disso é fruto do acaso. Não chegamos a este ponto acidental ou naturalmente. A continuidade histórica foi intencionalmente rompida com a revolução sexual da década de 60, e de lá para cá viemos rolando ladeira abaixo. Das muitas nefastas heranças do período, creio que a pior é algo que tenho visto em mim mesma e em muitas de minha geração: uma incrível e triste dificuldade em amar. Nas últimas décadas aprendeu-se que amar é, de algum modo, usar de todos os meios possíveis para sentir-se bem; aprendeu-se que felicidade é ter prazer. Assim, "amo" o outro (seja ele Deus, ou o pai, o marido, o filho, o amigo, o irmão) quando ele serve aos meus propósitos, quando ele contribuiu para o meu bem-estar, quando ele "me põe pra cima" - seja lá o que isso queira dizer; sinto-me feliz quando estou saciada em meus desejos. Caso contrário, "tchau!", "a fila anda", como diriam alguns.

Obviamente esse tipo de amor não vai longe, não dura muito, pois isola a pessoa em si mesma e inibe seu crescimento. Sim, compreensões e vivências desse tipo nos acorrentam à infância ou, quando muito, à adolescência. É um amor que vive em função de si, em uma eterna busca por aceitação, por afirmação, de modo que sobra muito pouco espaço para outros além do próprio eu. É egoísmo. É criancice. É estreiteza. É pequenez. E faz sentido quando se tem 4, 5, 10 ou 12 anos, mas somos nós, e pior, somos nós agora. Somos eu e você que não aprendemos o que seja realmente o amor.

Apesar disso tudo e de todas as mensagens diariamente emitidas pelos mais variados segmentos da cultura que reforçam esse ciclo de infelicidade (eles costumam chamar de liberdade), o fato de um vídeo como o exibido a seguir explodir em número de acessos indica que embora não tenhamos aprendido o que é o amor, ansiamos por ele lá no fundo de nossos corações.


Sim, o amor verdadeiro, como mostra o vídeo, não tem nada a ver com "amor à primeira vista", "almas gêmeas", "compatibilidade de gênios", e facilidades semelhantes. Felicidade não tem a ver com sentir-se bem, com festa, com prazer. Amor verdadeiro tem a ver com uma decisão voluntária pelo sacrifício, tem a ver com doação, com sair de si na direção do outro. Felicidade tem a ver com sentido, com propósito, com ser capaz de alegrar-se em meio, muitas vezes, à dor, à dificuldade, às objeções e "nãos" da vida. Ou seja, a verdade a respeito do amor e da felicidade está a quilômetros e quilômetros de distância daquilo que nos indicam os clichês, os filmecos mais assistidos e livrecos mais vendidos. E continuar a segui-los é continuar, portanto, a ser infeliz. 

Assim, caminhar de volta ao lar não é uma tarefa simples em nossos dias. Além das objeções e pressões externas, ainda enfrentamos nossos próprios limites, lutamos contra nosso próprio egoísmo, contra nossa própria criancice, contra nossa própria estreiteza e contra nossa própria pequenez. Afinal, embora o comercial seja lindo e desperte em nós o desejo de imitarmos tão nobres gestos e esforços, a realidade é que o sacrifício não é algo agradável, a verdade é que não haverá uma câmera registrando nossos melhores ângulos, tampouco garantias de reconhecimento ao final de tudo. E se houvesse, deixaria de ser sacrifício, deixaria de ser amor e passaria a ser escambo, troca, negócio. Mas o amor... ah! o amor sacrificial só existe no silêncio, na discrição, na gratuidade, no oculto em que só Deus é verdadeira testemunha (e verdadeira recompensa).

E é por isso que o amor, ao contrário do que se pensa, não está longe, mas perto, mais perto do que podemos imaginar, ao alcance de todos, pois todos temos o que doar. O amor está na louça lavada, na roupa dobrada, na cama estendida. O amor está no braço dormente, na noite mal dormida, no abraço de bom dia. O amor está no bife picado, no mamá da madrugada, na água depois da corrida. O amor está no ouvido atento, no cuidado fora de tempo, no colo que dá sustento. O amor está em aceitar o barulho, a falta de privacidade, a ausência de mimos. O amor está no perdão concedido mesmo antes de ser pedido, está na paciência que resiste ao tempo, no pedido de desculpas ainda que o erro tenha passado batido. O amor está em pagar o mal com o bem. O amor está em rezar sempre. O amor está em oferecer-se para pagar a Deus a dívida do outro. O amor está em querer levá-lo para mais perto de Deus.

Às queridas valentes que voltaram ou desejam voltar ao lar, deixo aqui um conselho: abandonemos o amor-criança e avancemos para o amor-adulto, não mais esperando a fantasia da ocasião ideal para começar a amar. A circunstância ideal acabou de se configurar: é agora e sempre, para sempre, em todo o lugar.

3 comentários:

  1. Querida Camila
    Apesar de não ter participado do curso (ainda), saiba que os seus relatos e muitas vezes desabafos têm me ajudado a compreender o meu retorno ao lar, como mãe, esposa e cristã.Também fui uma "bad girl" e é muito reconfortante e encorajador saber que não estou, que não estamos sós, com a Graça de Deus.
    Obrigada!

    ResponderExcluir
  2. Oh Camila...que benção! Que o Senhor Jesus nos ajude a amar assim...
    Um grande abraço de mais uma mulher cristã, mãe e esposa que acompanha seu blog!

    ResponderExcluir
  3. Tenho certeza que foi Deus quem a colocou no meu caminho, ainda que virtual! rsrsrs... Tenho 3 filhos pequenos e, com eles, nasceu o desejo de ficar em casa cuidando deles. Estou me organizando neste sentido, pedindo a Deus a orientação e confiando de que Ele há de me iluminar nesta tarefa. Parabéns pelo blog, cursos e testemunho! Beijos!!!

    ResponderExcluir