segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A escola dos bárbaros e o sonho de Lênin


O texto abaixo é de autoria de Daniel Fernandes, 
um professor de filosofia e história e amigo meu que teve a bondade de fazer um resumo comentado, especialmente para o Encontrando Alegria, 
da obra "A escola dos bárbaros"


Atentas a todos os passos do desenvolvimento da moderna pedagogia, Isabelle Stal e Françoise Thom, mostram, de maneira contundente, no livro A escola dos bárbaros, que uma explosão de inovações esquerdizantes, seguida de uma entronização crescente de falsas ciências e de geringonças pedagógicas no processo de “renovação dos colégios” afastou a escola de seus objetivos tradicionais, transformando-a num campo de experimentação aberto a todas as utopias coletivistas empenhadas na criação de um “homem novo”.

Essencialmente niveladora, porque não exige nenhum esforço real, a escola, transformada numa máquina de desaprender, tornou-se um lugar “mediocrizante” e “barbarizante”. Mantendo sempre os olhos fixos no horizonte da igualdade utópica, a nova pedagogia, inspirada numa lógica socialista, desqualificou o indivíduo por considerá-lo suporte da desigualdade. O grupo, no entanto, instrumento de nivelação, passou a ser exaltado a tal ponto, que se tornou o princípio da revolução pedagógica. O que importa, não é mais o ato inteligente de aprender, sem o qual nunca se poderá, realmente, criar, mas tão-somente o de participar, como todo o grupo.

A crítica das autoras é impiedosa, mas justa: a pedagogia moderna tornou-se um pesadelo a serviço da demolição da escola. A obra inteira pode ser considerada como um 'livro-denúncia' que enfeixa um sem-número de importantes e oportunas reflexões críticas sobre a devastação cultural e psicológica, sem precedentes promovida pelos cérebros pedagógicos, desde a primeira metade do século XX. A moderna pedagogia – que se intitulava científica – não mediu esforços para impor seu niilismo pedagógico, afastar os alunos das matérias e dos exercícios verdadeiramente formadores, em proveito de manipulações sem conceito, como a tecnologia, ou tagarelices sócio-críticas a serviço de ideologias.

Enquanto a educação tradicional pretendia controlar elementos tangíveis como a conduta, conhecimentos e resultados, a nova se arrogava plenos poderes sobre o espírito e os sentimentos dos alunos. Os pedagogos progressistas, sob o pretexto de instaurar na escola uma igualdade real, chegaram, inexoravelmente, a banir noções gramaticais de base. A própria linguagem foi colocada sob suspeita. Todas as práticas, todos os métodos distribuídos pela pedagogia, passaram a suspeitar da norma culta considerada infame por revelar disparidades culturais e socioeconômicas entre as famílias. Assim, sob o pretexto de instaurar na escola a igualdade, o ensino é nivelado por baixo.

Não por acaso, os resultados da pedagogia progressista, ainda em andamento, tem sido catastróficos. A maioria dos alunos dos últimos anos é incapaz de falar, isto é, de formular um pensamento, por mais simples que seja; logo que os estudantes têm de sair dos temas da vida corrente e das frases usadas pelos meios de comunicação, eles se mostram praticamente afásicos, abordando o domínio do pensamento abstrato como o auxílio de um lamentável arsenal de onomatopeias e cacoetes grupais.1 Ainda assim, longe de tirar lições de seus fracassos, os modernos pedagogos obstinam-se, pensando poder remediar as consequências de uma tolice pedagógica por outra. Existe aí uma lógica infernal: os entusiasmos dos pedagogos modernos provocam, nesse campo, desastres que lançam a máquina pedagógica num ciclo desenfreado, numa voragem de inovações, precipitando os infelizes alunos num abismo de ignorância e de perplexidade.”2

Reza a lenda que, em outubro de 1919, Lênin fez uma visita secreta ao laboratório do grande fisiologista Pavlov, querendo saber se era possível controlar o comportamento humano. Seu desejo era que as massas seguissem um padrão grupal de pensamento e ação. "Há individualismo demais, na Rússia. Precisamos aboli-las." Pavlov mostrou-se chocado. "O senhor gostaria que eu nivelasse a população da Rússia?" perguntou. "Exatamente", respondeu Lenin. "O homem pode ser corrigido, fazendo-se dele o que se quiser." Lênin morreu em 1924, e logo depois, a nova pedagogia tornaria seu sonho, realidade. O pedagogo moderno é o engenheiro de almas, como o qual sonhava Lênin3, e a nova pedagogia, um crime contra o espírito.

Por isso mesmo, A escola dos bárbaros é leitura obrigatória para educadores e, também, para pais que desejam, para seus filhos, uma escola sadia e eficiente, a salvo de ideologias perversas e desastrosas revoluções pedagógicas.
1 Isabelle Stal e Françoise Thom. A Escola dos Bárbaros. São Paulo: T.A. Queiroz Editor, 1991, p. 59.
2 Idem, p. 43.

3 Orlando Figes. A tragédia de um povo. Rio de Janeiro: Record, 1999, p. 900.


0 comentários:

Postar um comentário