terça-feira, 27 de agosto de 2013

Contrações e "As meninas exemplares"

Queridos,

Gostaria de publicar aqui uma pequena resenha sobre o novo livro do professor Olavo de Carvalho, "O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota" . Já iniciei a redação do texto, porém, as contrações começaram e nos próximos minutos sairemos rumo ao hospital. Assim, deixo-lhes aqui uma indicação de livro que redigi meses atrás, lá no meu antigo blog. Trata-se de um livro para meninas a partir dos 5 anos. Um primor.

Aproveito e peço-lhes as suas orações, para que tudo corra bem conosco. 
 
Até breve!

O post de hoje é novamente uma indicação de livro para ler com as crianças. Refiro-me ao "As meninas exemplares", da Condessa de Ségur. Há anos conosco, jamais tinha dado atenção ao livrinho até o dia em que havíamos concluído mais um volume da série Os Guardiões de Ga'Hoole e não havíamos adquirido o volume seguinte. Sem nada mais extenso que pudesse ler, algo que nos acompanhasse durante alguns dias, corri os olhos sobre o texto e, não encontrando nele nenhum problema mais evidente, pus-me a lê-lo para a Chloe e para o Benjamin. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir nele um tesouro.


A Condessa de Ségur, como mais tarde pude descobrir, nasceu em 1799, filha de uma rica família de Moscou. Mais tarde, no exílio que os levou à França e pós a morte do pai, converteu-se ao cristianismo, casou-se com o Conde de Ségur e com ele teve oito filhos, aos quais dedicou-se integralmente. Seus livros são resultado deste cuidado e, ao que indicam os trechos de suas demais obras, possuem franca inspiração e coerência com a fé cristã, além de retratarem com propriedade e riqueza a vida, os comportamentos e as fantasias das crianças de então.


Ao que pude perceber, os títulos da Condessa saíram de moda e avançam rumo ao mergulho no esquecimento, pois não há edições mais recentes em nossas editoras nacionais. É uma dupla pena: pena para os editores - especialmente os cristãos -, que deixam de enobrecer o seu católogo e influenciar de modo imensamente positivo as novas gerações; pena para nós, leitores, que vemos aumentar a cada dia a quantidade de deformidades morais publicadas e vendendo como água, escasseando sempre mais a boa literatura. Sorte nossa que existem bons sebos por aí.


O exemplar que tenho comigo de "As meninas exemplares" é uma edição publicada pela Ediouro em 1984 e possui ilustrações, notas de rodapé com listas das palavras provavelmente desconhecidas e seu respectivo significado e, além disso, um pequeno questionário ao final do livro organizado de acordo com os capítulos, com a finalidade de ajudar os pais e as crianças a perceberam o quanto a história está sendo assimilada. É importante saber que "As meninas exemplares" é o segundo livro de uma trilogia, mas que pode ser lido separadamente sem prejuízo algum para sua compreensão.


Trata-se, sem dúvida, de um texto equilibrado, que não caricaturiza a criança dando-lhe ares tolos e infantilizadores, mas também não lhe rouba a ingenuidade e a franqueza. Repleto de cenas de amizade, arrependimento, bondade, perdão e generosidade, "As meninas exemplares" nos "puxa para cima", apresentando-nos um padrão moral não muito distante no tempo e não muito difícil aos corações humildes. Deixo-lhes aqui algumas pequenas provas.

Este primeiro trecho marcou-me bastante, pois retrata a empatia e a generosidade na relação das duas mães viúvas:


"- E por que, então, vai nos deixar? - perguntou a Sra. de Fleurville.
- Porque preciso partir. Vou para a casa de minha irmã. Depois da morte de meu marido, ocorrida já há bastante tempo, fiquei sozinha, tendo apenas por companhia a minha pequena Margarida. Vivo num grande isolamento. E minha irmã convidou-me para ir morar com ela.
- Nesse caso, por que não fica aqui conosco? - insistiu a Sra. de Fleurville. - Margarida deu-se tão bem com Camila e Madalena, que certamente gostaria de permanecer na companhia delas. A senhora não acha?
(...)
- Quero que saiba, Sra. de Rosbourg, que não lhe faço este convite por mera gentileza - continuou a Sra. de Fleurville. - Como lhe disse, perdi também o meu marido. Ele morreu em combate na África. Creio que a senhora podia ficar morando comigo, porque assim faríamos companhia uma à outra. Além disso, como a senhora mesma reconhece, Margarida se sentiria melhor aqui, vivendo com Madalena e Camila.
(...)
- Pois bem - disse a Sra. de Fleurville. - Como estamos numa situação mais ou menos semelhante, volto a insistir no convite que lhe fiz para ficar morando comigo. A casa é muito grande, dá à vontade para nós e as crianças."
Já o trecho seguinte lembrou-me Sto. Agostinho:


"Assim que se viu a sós, Sofia colheu, mais que depressa, duas peras, não sem ter o cuidado de escolher as maiores. E escondeu-as no vestido.
Em pouco juntou-se às companheiras.
- Que é que há com você, Sofia? - perguntou Camila.
- Que é que há comigo? Ora, não há nada. Por quê?
- Sei lá? Estou achando você muito corada.
- Corada?
- Sim. Ela não está corada, Madalena? - insistiu Camila.
A outra olhou por um momento para Sofia:
- É... Engraçado! Ela está mesmo com o rosto muito vermelho.
- Não amolem! - exclamou Sofia. - Eu estou com a mesma cor de sempre. Acho melhor vocês irem andando.
(...)
Aí, então, num impulso de sincero arrependimento, Sofia tirou as peras de dentro do vestido e, num desabafo, contou tudo.
- Eu me sinto envergonhada do que fiz. Andei muito mal. Me perdoe, Camila, por ter deixado que desconfiassem de você. Mereço ser castigada - disse."
Por fim, um longo, mas lindo trecho sobre caridade:


"Saíram cedo. As crianças corriam alegremente pela estrada. De repente, viram debaixo de uma árvore, sentada no chão, uma menina chorando. Devia ter mais ou menos a idade delas e estava muito pobremente vestida.
- O que está fazendo aqui? - perguntou Camila.
- Nada... - respondeu soluçando a menina.
- Espere um pouco, Camila, que vou chamar mamãe - disse Madalena.
E voltou correndo ao encontro da Sra. de Fleurville, para dar-lhe notícia da menina que haviam encontrado. Apressando o passo, a Sra. de Fleurville, sempre seguida da Sra. de Rosbourg, em pouco chegava ao lugar onde se achava a desconhecida.
Perguntou-lhe qual era o seu nome. E ela, enxugando as lágrimas, respondeu:
- Lúcia.
O aspecto de abandono e pobreza da menina fazia um triste contraste com as quatro crianças que a cercavam.
(...)
- E por que está chorando? Diga. Responda. Pode dizer, minha filha.
- Eu... É porque... porque estou com fome... Ainda não comi hoje, madame.
- Meu Deus! - exclamou a Sra. de Rosbourg.
Imediatamente Camila pegou o cesto em que levavam o lanche do passeio e colocou-o diante de Lúcia:
- Pode comer à vontade. O lanche dá para todas nós.
(...)
- Este eu vou levar para minha mãe - respondeu Lúcia. - Ela também não comeu hoje.
- Tive uma ideia! - exclamou subitamente Sofia. - Que tal a gente ir até a casa de Lúcia com ela? Assim a mãe dela também pode lanchar com a gente, não é mesmo?
E a verdade é que, ao contrário do que acontecia habitualmente, Sofia viu, pela primeira vez, uma ideia sua ser aprovada sem reservas pelos adultos. Tanto a Sra. de Fleuriville quanto a Sra. de Rosbourg concordaram de pronto, e todo o grupo se pôs a caminho da casa de Lúcia." 
 
O sucesso do livrinho foi tamanho que Chloe pediu-me que recomeçasse a leitura! E já avançamos quase até o meio da obra novamente!

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Observações sobre o post de ontem

Dois leitores do blog, conforme vocês podem conferir nos comentários ao post de ontem, levantaram a objeção de que a matéria do G1 não menciona a importação de professores para as salas de aulas brasileiras. Achei por bem ir atrás de mais indícios que sustentem a minha interpretação de que, apesar de não ser explicita, tal é a intenção do governo. E aqui vão eles:

Primeiro indício: Como disse ainda ontem, nos comentários, o Programa Mais Professores inspira-se no Programa Mais Médicos;

Segundo indício: Além disso, como também já havia dito, o Programa usa explicitamente a palavra "visitantes" em seu nome, mesmo que em sua versão provisória: "Programa Nacional de Professores Visitantes na Educação Básica – Mais Professores";

Terceiro indício: Assim como o Programa Mais Médicos aparentemente pretendia ser voltado aos profissionais brasileiros, o Programa Mais Professores também o pretende. No entanto, a baixa remuneração oferecida e a falta de respaldo legal fez com que os médicos brasileiros não "suprissem a demanda", de modo que o governo federal foi "forçado" a abrir-se aos estrangeiros;

Quarto indício: A Venezuela, por exemplo, como boa cobaia que é, vive os efeitos nefastos de um programa ao mesmo estilo, o chamado "Missão Ribas de Alfabetização", totalmente baseado nas teorias de Paulo Freire, isto é, puro e simples emburrecimento, aliado à doutrinação ideológica esquerdista;

Quinto indício: Como a questão não é melhoria da qualidade de vida dos brasileiros, mas disseminação ostensiva de militantes entre as mais diversas esferas da sociedade civil, o governo já estuda também a importação de engenheiros para cá;

Sexto indício: Quando um esquerdista, refiro-me ao Mercadante, afirma, rindo, que não vai fazer algo, o que se pode esperar senão exatamente o contrário? Ou alguém aí já esqueceu, por exemplo, da promessa feita por Dilma de não legalizar o aborto e, no entanto, tão rápido quanto possível, convidar uma abortista confessa, Eleonora Menicucci, para assumir como ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, sem contar a recente tentativa de modificar a lei que trata da matéria?

Deixo aqui alguns outros links que tratam dos Programas Mais Médicos e Mais Engenheiros, para que se compreenda melhor a questão e seus prováveis desdobramentos:

Por último, um breve exercício de imaginação:

Há uma porção de estranhas embalagens distribuídas ao longo de um perímetro. Em seguida, ao aproximar-se, você sente o cheiro de explosivos vindo delas. Algumas embalagens explodem, mas, por sorte, todas longe de você. Perguntas: É realmente necessário que esteja escrito TNT sobre cada embalagem para que você conclua que se tratam de explosivos? Você ficaria aguardando o pior ou advertiria em altos gritos as pessoas ao redor para que saíssem de perto o mais rápido possível?

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Tirem já os seus filhos das escolas!

Queridos, 

Acabei de tomar conhecimento, via G1, que o governo federal, além de importar médicos cubanos, já planeja a importação de, adivinhem, professores! Se restava a alguém alguma dúvida do caráter meramente ideológico de tais importações, agora já não há mais motivo para tê-la. Uma vez que todos os postos de controle na nação estão nas mãos dos esquerdopatas, é chegada a hora de disseminá-los em todas as esferas, alcançando, inclusive, nossas crianças, e na idade mais tenra possível.

Sob o pretexto de, mais uma vez, suprir a escassez de profissionais, especialmente nas áreas mais distantes do país, o governo federal pretende "melhorar" a educação pública mediante a colaboração cubana. O que todo mundo já sabe, tanto no caso dos médicos quanto no dos professores, é que não nos falta mão de obra, mas condições de trabalho e remuneração digna aos profissionais; e sobre isso o governo não abre a boca. Antes, prefere importar mão de obra de guerrilheiros e repassar o dinheiro por um tal "trabalho", adivinhem de novo, ao governo cubano! Sim! Os "médicos" e "professores" virão fazer esse "excelente" trabalho de arregimentação e organização revolucionária e ficarão à mercê, sempre e de novo, de seus ditadores! É o Brasil ajudando Cuba a destruir o Brasil, às custas dos brasileiros e dos cubanos!

Sei que não contamos com materiais didáticos, amparo legal ou simpatia popular, mas não podemos entregar nossas crianças a um governo que não está de modo algum preocupado com educação, mas apenas com a manutenção, propagação e intensificação de sua agenda nociva, mentirosa e destruidora de tudo o que amamos em nome de sua própria perpetuação. Além disso, qualquer trabalho que amorosa e sinceramente desenvolvermos com nossas crianças será melhor para sua educação do que o que o governo pretende fazer - e, em certa medida, já tem feito. Já não somos tão poucas famílias homeschoolers no Brasil, já existe uma Associação que defende e trabalha pelos nossos interesses junto ao governo, já existe uma rede de pessoas que trocam informações e que se ajudam mutuamente. E os resultados, adivinhem de novo, são muito melhores que os oferecidos pelas escolas!

Por favor, rezem, pesquisem, escrevam, mas, especialmente, não entreguem suas crianças a estes que, apesar de não destruírem literalmente com as vidas de nossos pequenos, podem e querem deformar-lhes a alma por completo. Não sejamos omissos, irresponsáveis, obedecendo antes aos homens do que a Deus, mas sejamos valentes como os pais de Moisés, como o próprio São José e a Virgem Maria! Eles arriscaram muito mais, sozinhos, e foram abençoados por Deus! Juntos e com a ajuda Dele podemos resistir e, mais que salvarmos os nossos filhos, podemos contribuir decisivamente para o salvamento do futuro do país!


terça-feira, 20 de agosto de 2013

O mito da diversão

Tempos atrás escrevi sobre o mito da socialização na educação de crianças. Hoje quero escrever sobre o mito da diversão, outra mentira amplamente difundida em nossos dias. De certa forma, já abordei a questão parcialmente em diferentes posts, mas agora desejo "amarrar as pontas" deste assunto.

Antes do mais, porém, quero advertir, para evitar que me tomem por algum tipo de governanta mal-amada ou madrasta maligna, que não sou contra as diversões, as brincadeiras, as risadas - o nome desse blog é "Encontrando Alegria", não é mesmo? Minha objeção volta-se contra o atual domínio de uma concepção hedonista na criação e educação de crianças.

Coisa mais fácil do mundo, em nossos dias, é fazer os pais se sentirem culpados quando as crianças são submetidas a alguma atividade tida como não-divertida. E a perda de critérios da bondosa gente que mete o bedelho onde não é chamada (que inclui desde a vizinha até o governo federal) é tamanha que não existem mais nuances: ou a criança está transbordando alegria ou está sofrendo terrível e irremediável opressão e maus-tratos psíquicos. Tudo o que a criança pode e deve fazer precisa obrigatoriamente ser divertido, caso contrário é abuso.

Agora, retomando algo que disse no post citado acima, é a infância um fim em si mesma? Ou não seria um tempo especial de transição e preparação para a adultez? Claro, um tempo de maravilhamento, de espontaneidade, de curiosidade e de todas aquelas coisas lindas que são tão mais fáceis e tão mais belas nesses anos de estreia da vida. Mas, mesmo então, respeitando, admirando e cultivando momentos tão preciosos, não se pode perder a perspectiva: a vida, em geral, dura bem mais que estes anos iniciais, e não podemos entregar nossas crianças despreparadas para o que virá depois.

O que quero dizer com tudo isso pode ser resumido como o supra-sumo do politicamente incorreto em matéria de educação de crianças: precisamos trabalhar para que nossas crianças desenvolvam o senso de dever. Refiro-me, especificamente, à inclusão de atividades que se tornem parte da rotina da criança para além dos momentos de estudos e de brincadeiras, atividades estas que a ajudem a desenvolver os sentimentos de participação na família e de responsabilidade consigo e com os demais. Por exemplo: em se tratando de crianças bem pequenas, de dois aninhos, como o meu Benjamin, ensinar-lhe e, depois, solicitar que guarde seus brinquedos, que leve suas fraldinhas (só com xixi) até a lixeira, que recolha as mamadeiras e copos de suco é perfeitamente possível; já em se tratando de crianças maiores, como a minha Chloe, que está com sete anos, ensinar-lhe e cobrar-lhe coisas como arrumar a própria cama, pentear os próprios cabelos, recolher as próprias roupas e levá-las à máquina de lavar e secar a louça são muito tranquilas. Claro, não se deve cobrar algo que não foi suficientemente ensinado e treinado sob supervisão, nem exigir algo que esteja além das capacidades física, motora e psíquica da criança. 

Também é essencial deixar sempre muito claro que tais atividades não são uma forma de castigo, mas, antes, uma parte importante da vida da criança e da vida da família; que nem sempre fazemos o que queremos, o que gostamos, o que é mais divertido, mas que precisamos fazer a nossa parte para ajudarmos uns aos outros, senão alguém acabará sobrecarregado; que quanto melhor e mais rapidamente fizermos as nossas tarefas, mais tempo teremos para as outras coisas; que precisamos aprender a fazer todas essas coisas para sermos adultos independentes e seguros, que sabem cuidar de si e de sua futura família muito bem.

A diversão como algo que a criança possa supor como pretensamente onipresente nada mais faz além de produzir uma escalada na busca de mais e mais diversão, custe o que custar, de modo que as singelas alegrias de sua vidinha deixam de ser valorizadas, abrindo cada vez mais espaço para o deserto do aborrecimento e da insatisfação eternos. A diversão como um fim em si mesma torna-se tão vazia e tediosa quanto qualquer outro vício, escravizando seus súditos, os quais sacrificam tudo o mais em seu altar, sempre crentes na promessa de que o passatempo seguinte trará a tão desejada felicidade. Em contraposição, a diversão como o presente há tempos desejado e finalmente merecido, como o evento especial, como a coroa de risadas e brincadeiras depois do trabalho e do esforço, como a conquista planejada, traz saúde à alma, renovo à disposição e ajuda a estabelecer a adequada proporção às coisas da vida. Eis aí a verdadeira "educação para a cidadania". O resto é conversinha de comunista.

 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A importância da literatura

Dias atrás, publiquei no facebook o currículo básico utilizado em Harvard por volta do ano de 1600, quando sua fundamentação era o Trivium. Hoje quero publicar aqui (e lá) alguns trechos do Teaching the Trivium que falam sobre a importância do estudo da literatura dentro deste método de ensino.

"O primeiro veículo para transmissão da cultura é a linguagem. Quando uma cultura adquire um grau de complexidade tal que requer uma literatura para transmitir-se completamente, então tal cultura pode ser classificada como uma civilização (...).

A primeira instituição a transmitir cultura é a família. A família transmite os princípios elementares e fundamentais de governo, religião e economia de uma cultura (...).

O conhecimento do presente é construído sobre o conhecimento do passado. Se removemos inteiramente o passado, então removemos os fundamentos sobre os quais temos construído. Se nós não conhecemos, em alguma medida, os escritores do passado - suas ideias, então não conhecemos mais do que eles - e não temos como construir sobre suas ideias. Quando cessamos de conhecê-los, cessamos de saber mais do que eles. Não conseguimos permanecer sobre os seus ombros se não estivermos sobre os seus ombros. Estar sobre os seus ombros é beneficiar-se da cultura - beneficiar-se da transferência de conhecimento acumulado de uma geração para outra. Isto é uma cultura civilizada - uma cultura construída sobre a literatura (...).

Um homem sem uma cultura civilizada é um homem sem um passado sobre o qual construir (...).

Um homem sem cultura é um homem sem materiais para construir um futuro."

domingo, 18 de agosto de 2013

Meu menino é um cowboy

Ontem à noite, sem querer, caí numa página de perguntas e respostas do Teaching the Trivium onde uma mãe relatava a dificuldade em conseguir educar o filho. Traduzo aqui, na medida das minhas limitações, os comportamentos que, segundo a mãe, o menino apresentava, e, logo abaixo, um resumo das sugestões feitas pelo casal Bluedorn. À exceção da dica número 12, pois trata-se de algo incomum na realidade brasileira, acredito que todas as demais dicas podem ser úteis, ao todo ou em parte, e não somente para os meninos cowboys, mas por crianças que não têm fortes e naturais inclinações à vocação intelectual.


Pergunta: Meu filho manifesta os seguintes comportamentos:

1. Ele detesta segurar o lápis e tem uma letra terrível;
2. É desmotivado;
3. Faz apenas o mínimo exigido - parece preguiçoso;
4. Passeia por aí parecendo não ter nada para fazer;
5. Precisa ser continuamente lembrado sobre suas obrigações;
6. Não lê muito;
7. Não gosta de estudar;
8. Projetos não o agradam;
9. Tem um número pequeno de interesses;
10. Tem uma baixa capacidade de concentração;
11. Parece elétrico com frequência;
12. Precisa sempre estar fazendo alguma coisa com as mãos ou com os pés;
13. Nunca quer fazer as coisas que eu sugiro;
14. Se estivesse matriculado em uma escola, ele poderia ser excluído.

O que eu faço com esse menino? Sinto-me muito frustrada.

Resposta: Aqui vão algumas sugestões:

1. Não permita televisão, filmes, joguinhos de computador e músicas agitadas ou açúcares e cafeína. Permita somente brincadeiras com os amigos sob supervisão;
2. Faça-o repetir para você aquilo que você pediu que ele fizesse;
3. Trabalhe com ele até que você esteja satisfeita com a obediência dele. Isso é da maior importância;
4. Faça uma lista das coisas que ele precisa realizar todos os dias, faça-o conferir a lista e realizar uma contagem diária;
5. Espere, se necessário, até os oito ou nove anos antes de começar a ensiná-lo a ler. Libere-o dos livros didáticos até os onze anos. Leia para ele pelo menos duas horas por dia. Se ele odeia escrever, então permita que ele dite para você as suas cartas pessoais e as manchetes do jornal, ou permita que ele use um gravador;
6. Explore um ou dois dos seus poucos assuntos de interesse como um meio para ensinar-lhe outras coisas. Por exemplo: se ele gosta de aventuras, pesquise com ele sobre as viagens de descobrimento das Américas, sobre os navios, sobre os oceanos, sobre os nativos das regiões. Encorage-o a engajar-se em seus próprios negócios. Por exemplo: se ele gosta de espadas e tem aulas de esgrima, então você pode sugerir-lhe que dê aulas de esgrima aos menores, ou que faça um blog sobre esgrima, uma newsletter, um livro introdutório a respeito, um seminário sobre esgrima para outras crianças interessadas. Seu filho pode tornar-se um expert em esgrima;
7. Dê a ele bastante trabalho braçal - doméstico e especial. Mas não o sobrecarregue pedindo-lhe tudo de uma só vez, num mesmo dia - ele parece ser o tipo de pessoa que se frustra e se aborrece com facilidade. Peça-lhe aos poucos, em partes e depois faça uma contagem com ele de tudo o que foi feito;
8. Se possível, mude-se para uma área rural, onde possa criar animais e passar mais tempo ao ar livre. Crie coelhos, galinhas ou cabras e venda-os nas feiras, engajando-o em todo o processo. Treine seu cão e ensine seu filho a fazê-lo. Dê a ele ferramentas de carpintaria para que desenvolva essas habilidades e ajude a reconstruir ou melhorar o galinheiro, a casinha de cachorro.
9. Envolva seu filho em algum trabalho comunitário: visitar a enfermaria de um hospital uma vez por semana, preparar uma refeição para os idosos, ajudar na reparação de problemas nas casas dos idosos, contribuir para a manutenção da limpeza da sua região, fabricar pequenos brinquedos de madeira ou sucata para dar para as crianças hospitalizadas, fazer cartões de felicitações para enviar aos familiares, amigos e vizinhos.
10. Se possível, o pai pode convidá-lo a ajudar no trabalho uma ou duas vezes por semana;
11. Crie atividades de estudos em lugar de utilizar os tradicionais livros didáticos;
12. Envolva-o em reencenações históricas (Revolução Farroupilha, Primeira e Segunda Guerras, batalhas medievais, cruzadas...), faça os figurinos, as armas, leve-o a assistir eventos desse tipo;
13. Ensine-o a caçar e pescar;
14. Adquira boas bicicletas para a família e explorem juntos a região;
15. Ajude-o a seguir uma rotina (flexível, porém regular);
16. Por último, mas em primeiríssimo lugar, o menino deve participar das atividades religiosas da família: as orações, as leituras bíblicas, a frequência à igreja, a catequese etc.

Último conselho dos Bluedorn: Deus deu a você um filho assim para ensinar-lhe alguma coisa. Você precisa reconhecer o mais cedo possível que o caso dele, provavelmente, é um daqueles de desenvolvimento tardio. O ritmo dele não segue como o dos demais e ele precisa de sua atenção especial. Você não vai querer acordar para esse fato quando o menino estiver com dezessete ou dezoito anos, depois de já ter desenvolvido uma porção de maus hábitos e modos errados de pensar. Motivar um jovem de dezessete anos é muito difícil do que motivar um menino de dez anos. Moldar um jovem de dezessete anos é muito mais difícil do que moldar um menino de dez. Como com qualquer criança, você precisa construir uma sólida fundamentação antes de iniciar os estudos propriamente ditos. No caso de uma criança de desenvolvimento tardio, a fundamentação leva mais tempo para ser construída e demanda mais paciência, pois os tijolos utilizados tendem a ser em menor quantidade que a obra. Mas, acredite, com a graça de Deus, se você persistir, então a estrutura que você construir sobre os fundamentos fará com que todo o sangue, suor e orações tenham valido a pena. (...) Este é o caminho escolhido por Deus para ensinar-nos paciência e perseverança. É no processo de ser forçado a ter paciência e perseverança que nós aprendemos a ser verdadeiramente pacientes e verdadeiramente perseverantes.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Conversão e batismo em Nárnia

 Trecho de A viagem do Peregrino da Alvorada:


"Então o leão disse (mas não sei se falou): 'Eu tiro a sua pele'. Tinha muito medo daquelas garras, mas, ao mesmo tempo, estava louco para ver-me livre daquilo. Por isso me deitei de costas e deixei que ele tirasse a minha pele. A primeira unhada que me deu foi tão funda que julguei ter me atingido o coração. E quando começou a tirar-me a pele senti a pior dor da minha vida. A única coisa que me fazia aguentar era o prazer de sentir que me tirava a pele. É como quem tira um espinho de um lugar dolorido. Dói pra valer, mas é bom ver o espinho sair.

- Estou entendendo - disse Edmundo.

- Tirou-me aquela coisa horrível, como eu achava que tinha feito das outras vezes, e lá estava ela sobre a relva, muito mais dura e escura do que as outras. E ali estava eu também, macio e delicado como um frango depenado e muito menor do que antes. Nessa altura agarrou-me - não gostei muito, pois estava todo sensível sem a pele - e atirou-me dentro da água. A princípio ardeu muito, mas em seguida foi uma delícia. Quando comecei a nadar, reparei que a dor do braço havia desaparecido completamente. Compreendi a razão. Tinha voltado a ser gente. (...) Depois de certo tempo, o leão me tirou da água e vestiu-me.

- Como?... Com as patas?

- Não me lembro muito bem. Sei lá. Sei lá, mas me vestiu com uma roupa nova, esta aqui. É por isso que eu digo: acho que foi um sonho.

- Não, não foi sonho, não - disse Edmundo.

- Por quê?

- Primeiro: a roupa nova serve de prova. Segundo: você deixou de ser dragão... Acho que você viu Aslam.

- Aslam! - exclamou Eustáquio. - Já ouvi falar nesse nome uma porção de vezes, desde que estou no Peregrino. Tinha a impressão - não sei por quê - de que o odiava. Mas eu odiava tudo."

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Autismo e dislexia. E agora?

Embora os casos de autismo não sejam tão frequentes no Brasil, nos EUA eles já se tornaram quase uma epidemia: uma em cada nove crianças é atualmente diagnosticada como autista. Para agravar ainda mais a situação, o autismo não é uma doença padrão, que se manifesta sempre por meio dos mesmos sintomas e na mesma intensidade. Não. O espectro do autismo é amplo, de modo que os sintomas e a intensidade destes pode variar de caso para caso. Ou seja, o diagnóstico, especialmente aqui no Brasil, pode ser de lenta constatação.

Pensando nisso, decidi publicar aqui o link para um livro que ainda não li, mas que, pesquisando e lendo comentários na web, imagino que seja não somente bom, mas encorajador a todas as famílias que enfrentam situações semelhantes. Chama-se Brilhante.


Vejam aqui um trechinho:
"Kristine mantinha uma creche na garagem de casa, e sua experiência lhe dizia que era preciso encontrar o "brilho" de Jake, sua chama de interesse e paixão. Por que não focar no que ele podia fazer? E também investir naquilo que atraía sua atenção, como sombras se movendo na parede ou estrelas no céu. Essa filosofia básica, somada à crença no poder de uma infância comum e na importância de brincar, foi decisiva para o sucesso --além da fé inesgotável na família, nos amigos e em sua comunidade."
Na busca pela descoberta do "brilho" de Jake, Kristine também resolveu contrariar a opinião do marido e dos especialistas, abandonando os tratamentos que pareciam estimular apenas a um ainda maior isolamento do menino e criando um método pedagógico próprio, que levou Jake a um impressionante desenvolvimento. Não por acaso o subtítulo do livro, no original em inglês, é A mother's story of nurturing genius.

Por outro lado, os casos de dislexia são mais comuns por aqui. Mas isso não os torna mais facilmente detectáveis e administráveis, especialmente em se tratando da rede pública de ensino, onde são comumente confundidos com preguiça, desatenção e super-proteção paterna, o que só piora a situação.

Recentemente, uma amiga levou a filhinha para uma avaliação, pois vinha encontrando muita dificuldade em fazê-la unir as sílabas e ler os pedacinhos das palavras. Ao que tudo indica até o momento, a menina é uma forte candidata ao diagnóstico de dislexia, o que fez com que minha amiga prontamente adquirisse o material de alfabetização da Associação Brasileira de Dislexia. Desde então, sua filhinha tem feito bons progressos, bem como minha amiga recebeu elogios da neuropsicóloga que as atendeu, pois, segundo ela, a educação domiciliar propicia um ambiente melhor para a administração da dificuldade da pequena do que a sala de aula.

Deixo aqui algumas fotos que minha amiga fez do material adquirido:





Eis aí dois casos especiais, incomuns que contribuem, ao contrário do que se possa imaginar, para uma melhor constatação dos benefícios do homeschooling para a vida das crianças. 

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Máscara de oxigênio

Muitos certamente já ouviram o conselho das comissárias de bordo: primeiro coloque a sua máscara de oxigênio, depois ajude os demais a colocarem as deles. O princípio é bastante claro: se você não garantir a sua própria vida, será inútil preocupar-se com a vida dos demais. Por curioso que possa parecer, a educação domiciliar parece-me muito com a situação sobre a qual nos advertem as comissárias. Ou, como dizem os Bluedorn (do Teaching the Trivium), o homeschooling salva duas gerações: a dos pais e a dos filhos, mas, primeiro, a dos pais.

Isso acontece porque, excetuando as raras famílias que têm condições de contratar professores paticulares, antes de pretender ensinar alguma coisa aos filhos, os pais precisam eles mesmos relembrar ou até aprender os conteúdos a serem tratados. Assim, por buscar uma educação melhor que a oferecida pelas instituições disponíveis, sejam elas públicas ou particulares, e buscando também uma educação melhor que a que eles próprios receberam, os pais acabam corrigindo falhas, preenchendo lacunas, vencendo dificuldades e aprendendo coisas que, de outra maneira, em geral, muito dificilmente o fariam. E é então que começa o "salvamento" da primeira geração, com a possibilidade da correção do trajeto educacional no qual fomos colocados antes mesmo que pudéssemos discernir se aquele era o melhor rumo para nossas vidas.

Mas quando falamos em educação domiciliar, não falamos meramente de conteúdos, como se a sala de aula fosse transferida para a sala de casa, mas falamos principalmente de exemplos. O fato de as crianças não mais saírem de casa para ir à escola e já não estarem sob a autoridade de um terceiro para o aprendizado de determinados conteúdos faz com que o tempo de convívio em casa ganhe novos contornos e significados. Passa-se a compreender mais profundamente a importância da coerência para o exercício da autoridade, para a manutenção da hierarquia familiar e, consequentemente, para o sucesso nos estudos: aquela criança que é cobrada sobre determinado comportamento é a mesma que verá se os próprios pais comportam-se ou não de acordo com aquilo que estabelecem como padrão para ela; casos de pais ao estilo "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço" inevitavelmente minam sua própria autoridade, subvertem a estrutura familiar e comprometem o aprendizado de seus filhos. E este é, segundo me parece, um dos maiores perigos contra uma educação domiciliar bem sucedida.

O princípio em questão, em se tratando de exemplos, segue também o conselho das comissárias: coloque, primeiro, a sua máscara para depois poder ajudar os demais. Isto é, na prática cotidiana, o "colocar a sua máscara" significa, entre outras coisas, o seguinte: 
  • Você quer que seu filho goste de ler? Então leia. Leia com ele, leia para ele, mas, especialmente, leia sozinho, por si e para si. Diversifique os assuntos e os estilos disponíveis. Leiam ambos, pai e mãe;
  • Você quer que seu filho seja organizado? Então organize-se. Mostre para ele como organizar-se. Repita as explicações até que ele as internalize. Persista, consigo e com ele. Organizem-se ambos, pai e mãe;
  • Você quer que seu filho seja disciplinado? Então discipline-se. Tenha domínio próprio. Mostre como você não se entrega a todas as suas vontades. Ajude-o a fazer o mesmo. Diga 'não'. Mantenha a palavra. Disciplinem-se ambos, pai e mãe.
  • Você quer que seu filho seja perseverante? Então persevere. Insista. Não reclame. Não desista. Não postergue. Ajude-o a perseverar, a não reclamar, a não desistir, a não deixar para depois. Perseverem ambos, pai e mãe;
  • Você quer que seu filho seja respeitador? Então demonstre respeito. Seja gentil, amável, cortês. Elogie seu filho quando ele for respeitador e corrija-o quando não o for. Respeitem-se mutuamente, pai e mãe.
  • Você quer que seu filho coopere? Então coopere. Esforce-se por delegar e realizar fielmente as atividades da casa e da família. Mostre como quando alguém não faz a sua parte, uma outra pessoa ficará sobrecarregada. Cooperem entre si, pai e mãe; 
  • Você quer que seu filho seja santo, piedoso? Então santifique-se. Ore com ele, ore por ele, mas, especialmente, ore sozinho. Estabeleçam momentos de devoção familiar, além da frequência à igreja. Santifiquem-se ambos, pai e mãe.
Em uma época como a nossa, de evidente declínio intelectual, moral e espiritual, onde o avião civilizacional perde altitude rápida e desgovernadamente, certamente não conseguiremos influir o suficiente para o salvamento de toda a tripulação, mas podemos fazer a nossa parte, empreendendo aquilo que está ao nosso alcance para salvarmos a nós mesmos e aos nossos filhos. Afinal, esta é a nossa parcela de responsabilidade.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Avaliação

O homeschooling é uma novidade no Brasil: algumas famílias, nenhum material, nenhum registro histórico significativo, muita suspeita da sociedade e nenhuma cooperação do governo. Enfim, estamos reinventando a roda por aqui. Em meio a isso tudo, uma dúvida é comum a muitas famílias: "será que estamos fazendo isso certo?". Em outras palavras, como podemos avaliar se o homeschooling tem sido benéfico aos nossos filhos não apenas intelectualmente (aspecto este facilmente constatável através dos próprios exercícios respondidos pelas crianças e de seu respectivo desenvolvimento), mas, especialmente, emocional, moral e espiritualmente?

Ocorreu-me, então, elaborar uma pequena lista de atitudes/comportamentos a serem observados nas crianças. Como disse, trata-se de uma lista voltada para os aspectos emocionais, morais e espirituais da vida das crianças educadas em casa, portanto, não é um teste a ser aplicado, uma lista de perguntas que elas (as crianças) devam responder, mas uma série de coisas a serem observadas com carinho e atenção pelos pais, afinal, os avaliados aqui somos nós.

Auto-estima: a criança sente-se à vontade para falar sobre seus estudos e progressos a outros além dos pais?; sente-se confiante diante de matérias novas, de livros novos, de desafios?; alegra-se ao aprender algo novo?

Assimilação: a criança inclui em algumas de suas brincadeiras aquilo que tem estudado (por exemplo: brinca de aula, inventa cálculos, lê em voz alta para alguém, desenha personagens, imita a mãe ou o pai)?; a criança já relatou algum sonho bom/divertido com alguma atividade ou história que faça parte do programa?

Iniciativa: a criança espontânea e prazerosamente lida com seus materiais (por exemplo: lê a Bíblia, lê o Catecismo, passa a limpo alguns trechos de seus cadernos)?; pergunta, especialmente fora dos horários das atividades, sobre os conteúdos?; sugere/pede temas, atividades, problemas?

Transmissão: a criança corrige, explica ou tenta ensinar voluntariamente às mais novas (irmãos ou amigos) aquilo que tem aprendido (por exemplo: corrige algum comportamento indevido, explica algum conteúdo, mostra aos pequenos como realizar alguma atividade)?

É sabido que nem todas as crianças respondem do mesmo modo e com a mesma intensidade às atividades, no entanto, acredito que, em alguma medida, atitudes e comportamentos tais como os que listei acima e outros semelhantes devam estar presentes se o homeschooling está realmente produzindo bons frutos em suas vidas.


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A importância da repetição

Também em se tratando de educação, especialmente de educação infantil (pré-escola e séries iniciais), a "febre" da novidade se faz onipresente. Não basta que apenas as roupas, os cabelos, os telefones, os eletrodomésticos, os carros, as músicas e até os relacionamentos exalem novidade, ressoem o "último grito", sejam a mais perfeita expressão das tendências. Importa também que a educação se proponha a inovar, a ser criativa, espontânea, dizem. Ser dinâmico, interativo e lúdico também são partes do "molho base" do cardápio.

É claro que em si mesmas tais coisas não são ruins, não prejudicam
necessariamente o aprendizado. A questão é que todas elas referem-se à forma, não ao conteúdo daquilo que é ensinado. E quando a forma, a aparência, o método torna-se mais importante que aquilo mesmo que é objeto de estudo, então cai-se numa espécie de futilidade educacional, onde pouco importam as coisas mesmas, mas predominam a apoteose, as cores, as luzes, os sons, enfim, o show.

Repito, não há nada de errado em propor uma tarefa de maneira divertida, valendo-se das novas tecnologias, por exemplo. O problema é quando a diversão ou quaisquer outros elementos acessórios tornam-se o centro, os protagonistas da questão, relegando ao conteúdo uma posição de coadjuvante, ou, o que é pior, às vezes apenas uma ponta como figurante. Não raras vezes uma tal inversão serve apenas para encobrir a preguiça ou incompetência daquele que ensina, iludindo e esgotando o tempo de seus alunos.

Qualquer um que já tenha refletido minimamente sobre o modo como aprendemos, perceberá que não se trata de um processo fatiado, estanque, mas contínuo, cumulativo, constante. As analogias que eu poderia citar para ilustrar tal fato são muitas: uma construção que precisa de alicerces, fundamentos e de muitas outras coisas antes de pretender atingir o segundo andar; uma receita que precisa dos ingredientes para elaborar um prato; a árvore que precisa ser semente antes de dar frutos, etc. Só assim é que se avança nos conteúdos, nas matérias, nos assuntos: aos poucos, conectando as partes, consolidando o que veio antes para poder assimilar o que virá depois. Não pode haver avanço sem que haja consolidação, onde aquilo que foi aprendido torne-se patrimônio indissociável da pessoa que o possui, caso contrário, o resultado será o que mais vemos por aí: crianças que precisam resolver uma fórmula de Bhaskara mas que não sabem raíz quadrada.

Mas para que haja consolidação é preciso que ocorra a repetição, a tão temida estraga-prazeres desses nossos dias fashions. Sim, refiro-me à velha e boa revisão, ao antigo e antiquado "mais uma vez". Afinal, quando é que executamos uma atividade à perfeição (ou quase) se não quando a repetimos tantas vezes ao ponto de dominá-la inteiramente, de torná-la parte de nós? Vejo isso dia após dia com a Chloe, quando além de abrir-lhe novas "janelas", a conduzo pelos já conhecidos cômodos e corredores dos conteúdos conhecidos, para que veja e não esqueça como são as coisas de sempre, podendo, assim, acrescentar novidades ao seu universo sem perder nada daquilo que nele já havia. A repetição é serva fiel da memória, guardiã do passado e ama do futuro.

Assim, deixo aos meus leitores o estímulo (que é também um desafio): sejam divertidos, modernos, lúdicos sempre que isso for possível e conveniente na hora de transmitir o conhecimento, mas nunca, nunca deixem de consolidar, por meio da repetição, aquilo que já foi ensinado. Não sejam reféns, cedendo aos apelos das modas, em prejuízo dos conteúdos. Mozart nunca teria sido Mozart se precisasse relembrar onde ficava a tecla "la" no piano; Da Vinci jamais teria sido Da Vinci se precisasse redescobrir a cada pincelada o resultado da mistura dos pigmentos; Churchill jamais teria sido Churchill se precisasse reaprender a localizar a Alemanha no mapa a cada batalha.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Nossa vida sem TV (2)

Queridos, as últimas duas postagens têm dado um retorno que eu não imaginava. Muitas pessoas demonstraram, não só através de comentários aqui no blog, mas também de emails e mensagens no facebook, o interesse em lidar de um modo diferente com a TV em suas famílias. Pensando nisso, resolvi compartilhar com vocês o vídeo da Profa. Margarita Noyes, onde ela relata como ela e o marido, assim que casaram, decidiram não ter TV em casa. Para quem não sabe, a Profa. Margarita é a professora de inglês do Prof. Olavo de Carvalho e também é mãe de quatro filhos, todos educados em casa e hoje já adultos bem-sucedidos. 


Deixo também aqui mais uma nota a respeito de nossa experiência neste assunto: as crianças não foram completamente privadas de assistir a desenhos e filmes. Nosso procedimento tem sido o de assistir previamente ou nos informarmos antes sobre os conteúdos dos desenhos e filmes. Assim, de tempos em tempos, eles assistem alguma das duas coisas no computador. Alguns dos filmes favoritos são a trilogia de "As crônicas de Nárnia" (não recomendo às crianças muito pequenas ou muito impressionáveis por conta dos monstros e cenas de guerra; aqui, no entanto, o sucesso é total) e "A lenda dos guardiões". Já os desenhos favoritos são os desenhos bíblicos e Piggley Winks, ambos disponíveis no youtube.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Nossa vida sem TV

Já que o último post deu o que falar, resolvi compartilhar com vocês um post antigo, de um já falecido blog que tive, onde conto como foi a nossa experiência com e, alguns dias depois, já sem a TV. A ideia aqui não é servir de regra, mas apenas de testemunho de como uma família pode, mesmo com duas crianças, mesmo num apartamento pequeno, passar um excelente ano sem a companhia da televisão. De lá para cá as coisas mudaram bastante: os livros, por exemplo, tornaram-se protagonistas, tanto no estudo quanto na diversão dos pequenos. Ou seja, as coisas só melhoraram.
Há exatos doze dias nos desfizemos de nossa televisão e eu já me arrependo... de não tê-lo feito antes.
Já há algum tempo essa era uma questão que me vinha inquietando. Não por mim, que não assistia coisa alguma, mas especificamente pelas crianças, que assistiam exclusivamente o Discovery Kids. Chloe já preferia, na maioria da vezes, assistir os desenhos do que procurar por algo para brincar e Benjamin chorava quando desligávamos o aparelho. Além disso, a enxurrada de propagandas de produtos que nada têm a ver com o universo infantil, como carros, viagens, produtos de beleza - sem falar nas campanhas à la Greenpeace - eram de um oportunismo nauseante.
Por outro lado, apesar do incômodo e da preocupação que a situação vinha gerando em meu coração, não queria colocar-me na posição de polícia da família, cortando uma diversão que também meu marido eventualmente gostava de usufruir, assistindo aos noticiários e às séries. Assim, antes de fazer qualquer coisa, resolvi orar a respeito, pedindo para que Deus fizesse a Sua vontade, convencendo, sem a minha influência, ao Gustavo sobre a necessidade de nos desfazermos da TV, se fosse este o caso. 

Passadas duas semanas, estávamos todos na sala, conversando, quando, na iminência de um desenho ruim, desliguei a televisão. Neste mesmo instante, Benjamin, como dizemos por aqui, abriu o berreiro, chorando e tentando de todas as formas possíveis ligar novamente o aparelho. Foi então que ohei para Gustavo e disse:

- Esse guri tá viciado em TV.

Ao que ele me respondeu:

- O que tu acha de nós darmos essa TV para outra pessoa?

Ali estava a resposta às minhas orações. Sorri e concordei, contando então sobre meu pedido a Deus. No dia seguinte a TV foi embora e nossa rotina foi grandemente modificada.

É claro que nosso tempo "livre" diminuiu muito - cá estou eu, pela terceira vez num intervalo de quatro dias, tentando concluir este post -, pois as crianças já não têm algo que prenda tanto a sua atenção. É claro que temos interagido muito mais, conversado muito mais, brincado muito mais, pesquisado muito mais e trabalhado muito mais juntos. Por conta disso, eu e Gustavo temos tido que estudar mais para termos mais recursos com os quais conduzi-las de uma maneira construtiva e divertida ao longo do tempo.
Algumas das coisas que temos feito com mais frequência ou intensidade do que antes são: conversar, brincar, "fazer nada" juntos, realizar alguma tarefa da casa - arrumar os brinquedos, os livros, secar a louça, levar as roupas limpas do varal para o quarto -, ler juntos - a série "A lenda dos guardiões" e a Bíblia todas as noites. Seguimos fazendo diariamente as tarefas da escola, mas acrescentamos algumas atividades de homeschooling de alfabetização e também exercícios de caligrafia. As novidades, no entanto,  têm sido duas:
1. O "lap book": uma espécie de livro de atividades variadas a respeito de um mesmo assunto. Temos trabalhado o tema "corujas", que são a febre do momento aqui em casa. No entanto, nem todo o dia consigo preparar alguma atividade para o lap book, mas, por incrível que pareça, Chloe está tão empolgada com a novidade que ela mesma procura elaborar alguma atividade;
2. A flauta doce: encontramos uma série contínua de bons tutoriais no youtube, preparados para crianças e educadores de crianças. Esta é uma atividade que o Gustavo realiza com a Chloe e os resultados têm sido muito bons! Apesar da impaciência quanto à falta de domínio do instrumento, Chloe mal termina de almoçar e corre, invariavelmente, para a flauta. Durante breves e muitos instantes ao longo do dia ela pratica, sendo que as aulas avançam somente quando uma familiaridade mínima com a nova etapa do aprendizado é adquirida.

Enfim, estamos mais cansados, mas, curiosamente, mais inteiros e mais unidos. Temos procurado fazer, com o auxílio e dependência de Deus, aquilo que temos convicção de que gerará bons frutos no caráter e no futuro dos nossos filhos.