sábado, 6 de julho de 2013

O mito da socialização

"Dêem-me quatro anos para ensinar as crianças, e as sementes que eu plantar jamais serão extirpadas." Lênin

Um dos argumentos mais frequentemente defendidos por professores, psicólogos, pais e familiares contrários ao homeschooling não diz respeito à qualidade de ensino, mas ao "fato" de que as crianças precisam se socializar, precisam conviver com outras crianças, precisam aprender a se relacionar, a lidar com as diferenças, etc. E quanto mais as famílias encolhem, restringindo a prole a uma única criança, mais parece fazer sentido um tal argumento. No entanto, algumas coisas me fazem duvidar da boa-intenção por trás da socialização.

É importante ter amigos, é importante conviver com outras crianças, todavia a infância não é um fim em si mesmo. É, eu sei, os românticos de plantão acabam de desmaiar, mas a verdade é que, tão necessário quanto brincar é o aprender a ter responsabilidades. Passa-se a maior parte da vida na idade adulta e é para ela que a criança deve ser preparada. Mas como dar-se-á uma tal preparação se a criança convive majoritariamente com iguais, com outras crianças, e não com pessoas de diferentes faixas etárias? Quem dentre elas apontará o caminho para aquilo que devem vir a ser, se, ao redor de si, há apenas quem reforçe, seja por meio da diversão ou por meio da disputa e da inveja, aquilo que já se é? Repito, brincar é necessário, é bom, é saudável, mas não é tudo. A ênfase excessiva nos direitos gera adultos que não sabem lidar com deveres, como vemos cada vez mais todos os dias.

Além disso, a ideia de que a criança aprende a se relacionar no contato com outras crianças parece-me um tanto artificial. A criança não nasce de crianças nem entre elas, mas de adultos e entre eles, entre mãe e pai. É na relação com eles e na observação da relação entre eles que a criança aprenderá a relacionar-se. Se vem de um lar violento, a criança muito provavelmente será violenta com os demais. Se vem de um lar amoroso, muito provavelmente será amorosa. Se vem de um lar onde não recebe limites, não saberá conter-se e refrear-se, mas tentará sempre obter tudo o que lhe agrada. Claro, quanto maior for a família, tanto a nuclear quanto a ampla, melhor, pois maior será a diversidade de situações nas quais a criança aprenderá a conviver. No entanto, são a mãe e o pai aqueles que servirão de mestres e de estabelecedores do fundamento emocional para os relacionamentos que virão ao longo da vida, não os professores, colegas e amigos.

Outro argumento comum é aquele que fala sobre a necessária aprendizagem do convívio com os diferentes. Sim, mas pergunto: as pessoas, numa família, são todas iguais? Não possuem, cada uma, o seu temperamento, o seu jeito de lidar com as coisas, suas preferências, seus sonhos? Não é este o ambiente adequado para, debaixo do cuidado e supervisão dos pais, a criança aprender a lidar com as diferenças? Ou aprender a lidar com as diferenças é sinônimo de ser obrigado a permanecer no mesmo ambiente com quem, não raras vezes, é radicalmente diferente? Isso, para mim, assemelha-se mais a um presídio do que uma escola. Afirmar que a criança precisa da escola para se socializar soa-me tão natural quanto afirmar que um bebê necessita de uma cadeira para ser gestado. Socialização é um processo gradual que deve começar na família nuclear, expandir-se para a família ampla, para a igreja, para as famílias dos amigos dos pais e só mais tarde, quando a criança já não for mais criança, mas um jovem com convicções definidas e firmes, para a sociedade.

E já que falei em juventude e em convicções, relembro aqui, mais uma vez (e perdoem-me os leitores assíduos, pois devem estar cansados da constante referência), o Maquiavel Pedagogo. Na obra, o autor explicita a comprovada técnica na qual, quanto mais cedo as crianças forem afastadas do ambiente doméstico, mais suscetíveis tornam-se às mais diversas influências externas. Em outras palavras, crianças (e quanto mais novas forem, melhor) não possuem as capacidades cognitivas suficientemente desenvolvidas para compreender quando estão sendo manipuladas ou forçadas a algo que contraria frontalmente o modo como vive ou aquilo em que sua família acredita, nem possuem estrutura emocional para resistir à força da autoridade dos professores ou da pressão dos colegas. Ou seja, a um governo comprometido com a destruição das famílias e da instauração de um regime totalitário, nada melhor do que crianças que podem ir já aos 6 meses de vida para as creches estatais, ou, na "pior" das hipóteses, que irão obrigatoriamente aos 4 anos para a escola.

Aos pais é que cabe a decisão de quando e como as crianças devem participar de um convívio social mais amplo, não ao Estado. Socialização obrigatória não é socialização. É prisão.

12 comentários:

  1. MUITO BOM, Camila. Tive homeschooling até a terceira série e não sou nenhuma maluca que vive dentro de uma caverna obscura e grita quando seres humanos chegam perto de mim etc. etc.. Isso só me privou de, hoje em dia, socializar com imbecis.

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  2. Texto interessante! Postei um texto em meu blog sobre doutrinação nas escolas. Muita coisa pra se refletir e perceber!!!

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  3. Parabéns! Se possível mude a fonte do blog.

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  4. Querida Camila, parabéns pelo belo texto! Sempre considerei importante que crianças passassem mais tempo com adultos do que com os seus pares. É notável o amadurecimento intelectual de crianças que são estimuladas pelo próprio convívio com adultos.

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    1. A questão é equilíbrio, né Suzana. =) Nem só adultos, nem só crianças, mas, tanto quanto possível, pessoas educadas e amorosas. ;)

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  5. Estimada Camila,

    um alívio na alma senti ao ler este seu artigo. Aquilo que penso a senhora resumiu de forma brilhante!!! Vou fazer de tudo para espalhar este teu belíssimo artigo! Deus seja louvado por te conhecer... mesmo ainda só "via internet".

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  6. Olá, Camila!
    Sou estudante de Pedagogia (em vias de concluir!), mãe homeschooler (minhas filhas têm 5 e 3 anos) e também escrevo sobre maternidade no meu blog (se quiser conhecer, este é o link: www.maternidadeproativa.blogspot.com). Esta semana duas pessoas me recomendaram o seu blog porque estou pesquisando e quero entender melhor o que é o trivium e a educação cristã clássica. Você tem textos para me indicar?

    Gostei desse seu post sobre socialização. Penso como você. E acrescentaria que a socialização escolar é, na verdade, uma socialização artificial. Qual o sentido de colocar 20-30 crianças da mesma idade numa sala e chamar isso de socialização?! Muito mais sociável, ao meu ver, é a criança que convive com diversos tipos de pessoas de uma comunidade (família, vizinhos, parentes, igreja, clube, biblioteca, etc.) e sabe lidar com pessoas de todas as faixas etárias!! E nada melhor do que o homeschooling para favorecer esse resultado. Não é porque praticamos homeschooling que nossos filhos ficam trancafiados dentro de casa sem ver pessoas ou a luz do dia, né? Não sei de onde tiraram essa ideia maluca. :)

    Um abraço!

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  7. Acho que os que defendem a socialização como o principal argumento para não tirar as crianças da escola, esquecem que essa ideia de "escola para todos" é muito recente. Sabemos bem que a escola sempre foi espaço de um pequeno e limitado grupo de pessoas. É aí que eu pergunto: se a socialização fosse algo exclusivo da escola, então a maior parte da população, em quase toda a história da humanidade, não se socializava?

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  8. Olha, li seu artigo e depois esbarrei em dois outros na net. Um é de Olavo de Carvalho, publicado no Diário do Comércio em 2012 e fala sobre como o A teoria socioconstrutivista de Vygostky solapou nossa educação a aprtir dos anos 70 (http://www.olavodecarvalho.org/semana/121030dc.html). O outro fala sobre sobre o "brincar" nessa teoria mas faz uma explanação bastante direta sobre a teoria até a página 55 (http://www.scielo.br/pdf/pe/v6n1/v6n1a07.pdf). Não dá pra não notar a semelhança com a realidade. Até a década de 70, a educação nacional, mesmo sendo ainda precária, se prestava ainda a formar verdadeiramente uma criança. Tenho vários exemplos de "mais velhos" que possuem um linguajar preciso, capacidade de compreensão e análise de textos e domínio de matemática básica (operações básicas inclusive entendendo os algoritmos da multiplicação e divisão, bem como percentagem e equações simples) coisa que é raríssimo encontrar em alunos de Ensino Médio, equivalente ao Ginásio na época. Muitos, mas muitos estudantes mesmo não conseguem se desenvolver plenamente por que possuem deficiências nas suas capacidades linguísticas (enquanto que já tivemos aula de latim e francês e as aulas de português eram maciças). E de onde vem isso?? Socioconstrutivismo! Segundo esta, o desenvolvimento da criança é um processo social, NUNCA individual! Aposto que muitos de nós pensando sobre vai perceber que muita coisa que aprenderam foi por causa de esforço individual! O professor Pierluigi Piazzi fala sobre isso de maneira magistral (https://www.youtube.com/watch?v=YSJsaER7rgg). Outro ponto dessa teoria vygotskyana é que ela prega que a aprendizagem é também histórica. Ou seja, cada indivíduo tem sua história e aprende em tempos diferentes de outros. Daí, advém o absurdo das escolas passarem o aluno de ano mesmo não tendo aprendido o estudado no ano. Fazem isso sistematicamente nas escolas, desde as séries iniciais até o ensino médio (parece que nas universidades isso ainda não acontece, porém os universitários já entram com uma formação deficitária). Por fim, gostaria de lhe parabenizar Camilla pela coragem, força e fé! E a frase inicial do texto, a frase do Lênin é perfeita! Perfeita por que nos leva ao cerne da questão. O socioconstrutivismo, como o nome já indica, é uma teoria de bases marxistas (materialismo dialético de Hegel) e se propõe a formar adultos "críticos de uma coisa só": a luta de classes (o Admiravel Mundo Novo do Aldous Huxley é muito útil para refletrimos sobre o assunto). Que o Senhor te ilumine e Nossa Senhora sempre interceda por ti.

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