sábado, 22 de junho de 2013

Minhas leituras e as "manifestações pacíficas"

Desde que recebemos o Trivium, não consegui parar de lê-lo. Claro, naquele meu horário pré-coma noturno, mas, ainda assim, e apesar de não ser fluente em inglês, tenho avançado com certa facilidade todos os dias. Diante disso, o Maquiavel (I e II) foi ficando em segundo plano, o que não é difícil se considerarmos o tipo de conteúdo da obra e, além disso, o meu péssimo hábito de pular de um livro para o outro. De todo modo, conforme prossigo no Trivium, não consigo deixar de vê-lo como uma espécie de contraponto ao Maquiavel. Eu sei, parece estranho, mas enquanto este último é como que uma amostra de veneno mortal, com ampla descrição dos componentes da fórmula e seus respectivos sintomas, aquele é como que o remédio, a cura para este e para ainda outros venenos. Assim, o contraste entre as obras tem me ajudado a compreender mais intensamente diversos pontos em questão.

"E as 'manifestações pacíficas', o que elas podem ter a ver com os dois livros?" Tudo. Vejam só: vocês observaram a faixa etária predominante entre os participantes? Trata-se, é inegável, de uma maioria de jovens e adultos entre 15 e 30 anos. É gente mais nova que eu e que você, talvez. Agora, afastemo-nos um pouco no tempo a fim de recapitularmos alguns elementos do nosso período escolar, especialmente se você, assim como eu, frequentou escolas públicas. Você consegue lembrar-se do tipo de posicionamento ideológico dos seus professores de história/sociologia/filosofia? Os meus eram todos, sem exceção, esquerdistas. E como prova basta rememorar alguns lugares-comuns da doutrinação em sala de aula: a Idade Média foi uma época de trevas dominada por fanáticos católicos, "a religião é o ópio do povo", os EUA são os vilões do Ocidente, os militares deram um golpe em 64 e acabaram com a liberdade do povo, Cuba é muito legal e só há pobreza por culpa do embargo norte-americano, o comunismo é "do bem" e só deu errado por detalhe, etc. 

Na verdade, se retrocedermos mais um pouco, veremos que a doutrinação em sala de aula não começou na minha geração, mas, antes, provavelmente na mesma época do contra-golpe militar de 64 (sim, pois foi isso o que ocorreu), quando os militares restringiram sua esfera de ação à inibição das ações armadas dos grupos terroristas, não zelando pelo campo teórico, deixando aberto o caminho para uma revolução marxista ao estilo gramsciano, isto é, por meio da cultura, não das armas. De lá para cá, geração após geração, o pensamento esquerdista tem ganhado cada vez mais espaço e cada vez mais adeptos, estabelecendo uma homogenia política e ideológica quase completa. Assim, não é de admirar que, embora há quem afirme a presença de "conservadores" nas manifestações, os mares de pessoas presentes nas capitais são compostos por esquerdistas, pouco importando se extremados ou "festivos". 

Ou seja, a "rapaziada politizada e engajada" que quer mudar o mundo, que tem um número infinito de causas a defender e que quebra tudo de qualquer maneira passou por um processo ainda mais acentuado de manipulação psicológica e de modificação comportamental do que nós, eu e você, passamos. Com isso não os estou justificando, mas apenas tentando explicar os fatos. E é assim podemos ver como Maquiavel Pedagogo tem tudo a ver com as "manifestações pacíficas".

Agora, talvez você, mãe cristã, esteja sob a pressão de "o que fazer, afinal?". Alguns insinuam chamar-lhe de covarde por não participar dos eventos, outros, de acomodada, afinal, "fazer alguma coisa é melhor que não fazer nada, pois a hora é agora e o gigante acordou": eis o discurso de muitos, inclusive cristãos. E é aqui, como resposta às pressões externas (e talvez internas também) que se encaixa o Trivium. Há mais de duas décadas o casal Bluedorn, autores do Teaching the Trivium, perceberam o avanço da ideologia esquerdista nas escolas do EUA e, embora este não tenha sido o motivo essencial para que optassem pelo homeschooling, por compreenderem o total antagonismo desta com a fé cristã, encontraram aí mais uma razão para afastar suas crianças das escolas, fossem elas públicas ou privadas.

Sinceramente, em nossa situação específica e a curto prazo, não vejo saída. Enquanto os Bluedorn anteciparam-se a um problema, nós chegamos tarde. O que temos é a esquerda digladiando-se contra a própria esquerda em busca de mais poder, rumo à instauração de um regime totalitário a pedido do "povo", ainda que as palavras de ordem e os "direitos" reivindicados soem benéficos. É a concretização do golpe à moda gramisciana, sem terrorismo, sem bombas, sem sangue derramado, onde a revolução parte do coração das massas manipuladas. Posso estar engana, e tomara mesmo que esteja, mas não vejo como as circunstâncias possam melhorar, pois não há uma liderança alternativa às opções que aí estão. E também isso, ao que me parece, é resultado do longo e paciente trabalho subversivo esquerdista.

Porém, a longo prazo, a situação não precisa nem pode continuar idêntica. Assim como os esquerdistas entregaram-se perseverantes ao trabalho de implodir o país atacando-o, durante décadas, por diversas frentes, dentre as quais a educação figura como uma das principais, nós também, pais e mães cristãos precisamos nos entregar ao trabalho de preparar uma nova geração de fato, não simplesmente na esperança de salvarmos o futuro do Brasil, mas no dever de criarmos nossas crianças para a glória de Deus, não para a vergonha de Seu nome. Claro, isso envolve homeschooling ou, no mínimo, intenso acompanhamento paralelo. Mas sobre todas as coisas, a mais importante não diz respeito a meros conteúdos, mas à postura da família: esta deve compreender que suas crianças não são responsabilidade do governo, mas SUA responsabilidade; elas são presentes de Deus PARA OS PAIS, não para os professores, de modo que os primeiros é que prestarão contas a Deus, não os segundos; e a única coisa que pode mantê-la firme contra o roubo e a confusão esquerdistas é a manutenção e o fortalecimento dos vínculos de AMOR e de FÉ, nada mais. É sobre estes fundamentos que o planejamento curricular da família poderá ganhar força e prosperar, seguindo na direção oposta à que nos oferece o governo, para pleno desenvolvimento de nossas crianças, para um futuro melhor ao nosso país e para a glória de Deus. E o Trivium, parece-me, é a ferramenta mais adequada para a realização dessa tarefa.

Que Deus possa iluminar nossos corações para que compreendamos a seriedade do que está em jogo e nos dê sabedoria e ousadia para buscarmos agradá-Lo vivendo uma vida familiar segundo a Sua vontade, não segundo nos aconselha o mundo.

4 comentários:

  1. Trivium e Rebelião das Massas, do Ortega y Gasset, são bons companheiros de jornada durante os protestos.

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  2. Como estão as suas leituras do Trivium? Encomendei o meu livro na AMAZON - só chegará em meados de agosto do corrente ano -, e gostaria de saber se você não voltará a leitura do livro? Não tenho filhos ainda, mas quero ajudar na educação dos meus sobrinhos - 3, Júlia, Vitor e Luana. Enfim, quero trocar impressões com você. Ah!, se possível, adicione-me no Facebook - Sidney Vida. Um abraço e até mais,

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  3. Oi, Sidney.
    Eu não parei com a leitura do Trivium, apenas não escrevi mais a respeito... Planejo um post para breve com um apanhado das dicas que os autores sugerem para o estudo de línguas.
    Atualmente estou na parte que aborda a questão da lógica.
    E continuo achando que o livro é realmente muito bom.
    Um abraço!

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  4. Bacana! Fico ansiosamente no aguardo do seu post. Tenho muito interesse nos assuntos ligados ao Trivium. De toda forma, poderei aproveitar mais as suas impressões quando começar a lê-lo, também. Um abraço e até mais

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